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17 de abril de 2012

Parceria com empresas pode prejudicar ambientalismo de ONGs

Uma pesquisa realizada na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP), em Piracicaba, verificou que parcerias entre Organizações Não Governamentais (ONGs) ambientais e empresas pode alterar a maneira como as ONGs atuam. De acordo com o estudo, o problema dessas parcerias é que as empresas, visando somente o lucro, passam a interferir e a determinar o ambientalismo praticado. "Isso pode ser prejudicial à ideia inicial das ONGs", analisa a gestora ambiental Helena Lemos dos Reis Magalhães Gomes, autora da dissertação de mestrado Parcerias entre empresas e ONGs e a constituição de um novo sistema de publicidade ambiental: um estudo de caso.


Foi feito um estudo de caso múltiplo utilizando duas ONGs: a Fundação SOS Mata Atlântica e o Instituto Ambiente em Foco. Segundo a pesquisadora, a primeira organização, por ser de maior porte no mercado, trabalha de igual para igual com as empresas com que realizam parceria, compondo estratégias para melhorar a imagem ambiental tanto delas, quanto da própria fundação. Os problemas ambientais, nas últimas décadas, deixaram de ser negados, e passaram a ser utilizados para o marketing das marcas. 



Já a segunda ONG (Instituto Ambiente em Foco), de porte muito menor, não pode ser apontada como uma organização que atua a favor do marketing ambiental empresarial. Ela não construiu estratégias para promover sua marca e a das empresas e e se tornou, diante dessas parcerias, uma realizadora de projetos ambientais para empresas, com pouca força para criar suas próprias iniciativas. Suas ações acabam sendo delimitadas pelas empresas financiadoras, baseando-se nos interesses próprios destas.



A pesquisa foi orientada pelo professor Antonio Ribeiro de Almeida Junior e mostra que também podem haver potencialidades nessas parcerias. As ONGs aumentaram muito suas receitas, além de se tornarem mais profissionais após a ligação com empresas. Entretanto, o Instituto Ambiente em Foco teve problemas para gerir essa nova receita obtida e a SOS Mata Atlântica passou a adotar práticas muito mercadológicas, o que indica diferentes impactos que as parcerias podem causar nas dinâmicas internas das ONGs.



Foi verificado, também, que o maior diferencial da SOS Mata Atlânticaé uma grande capacidade de lidar com a comunicação. O fato de ela já ser uma marca bem estruturada e conhecida faz com que uma empresa que tenha parceria com ela já seja bem vista na questão ambiental pelo público, ainda que esta empresa não seja verdadeiramente comprometida com a questão ambiental.



Método



Helena percebeu que esse tema, embora bastante comentado no âmbito das questões ambientais, não tinha trabalhos acadêmicos com uma visão científica sobre ele. "O objetivo do estudo, além de descrever esse fenômeno novo [das parcerias entre ONGs e empresas] é ver qual o impacto na ONG, com todo esse interesse empresarial por trás dela", afirma a pesquisadora.



A pesquisa foi planejada teoricamente antes, para que pudesse estar totalmente estruturada quando fosse realizada de fato. Então, foi feito em três frentes diferentes nas duas ONGs: foram realizadas entrevistas com as pessoas que ocupavam cargos de coordenação ligados à comunicação, à captação de recursos e financeiros. "Dei voz aos entrevistados, tive a preocupação de não fazer tantas análises prévias", relata a pesquisadora.



Foram feitas, também, análise de documentos. A gestora ambiental ressalta que a Fundação SOS Mata Atlântica, que tinha muito material para ser analisado nesta parte, foi transparente com a pesquisa. O Instituto Ambiente em Foco, por ser mais recente e menor, tinha menos material disponível nessa parte do trabalho, mas, assim como a SOS, colaborou durante a fase de coleta da dados. A outra frente foi a observação livre do trabalho realizado pelas organizações.


Mais informações

Pesquisadora Helena Lemos dos Reis Magalhães Gomes
Telefone: (19) 8222-5757
E-mail: hldgomes@esalq.usp.br 

Fonte acessada: Agrosoft

Agência USP de Notícias
João Ortega - Jornalista
Telefone: (11) 3091-4411
E-mail: agenusp@usp.br

6 de março de 2011

Estudo mostra os beneficiários da destruição na Amazônia



"Os frigoríficos Bertin e JBS Friboi formaram, em 2009, a maior companhia do mundo no segmento de proteína animal. Porém, ao se unirem e construírem uma planta industrial, o grupo adquiriu madeira de empresa que já recebeu matéria-prima de fazenda com área embargada peloIbama."



Esse é um dos diversos casos de grandes empresas envolvidas com a cadeia produtiva predatória que ilustram a pesquisa Quem Se Beneficia com a Destruição da Amazônia, lançada em 23 de fevereiro de 2011, em São Paulo, pelo projeto Conexões Sustentáveis: São Paulo–Amazônia, iniciativa que busca mobilizar as cadeias de valor dos setores da pecuária, da madeira e da soja por meio de pactos setoriais para a preservação da Floresta Amazônica e de seus povos. 

O estudo mostra que grandes empresas que atuam no município de São Paulo continuam presentes na cadeia produtiva de crimes ambientais e sociais cometidos contra a Amazônia.

De acordo com Leonardo Sakamoto, coordenador da ONG Repórter Brasil e um dos autores do estudo, grandes empresas como Casas Bahia e Magazine Luíza estão relacionadas com o desmatamento da Amazônia ao comprar produtos de fornecedores ligados a crimes socioambientais na região. "O desafio é privilegiar o desenvolvimento sustentável sem impedir que classes sociais mais baixas tenham acesso a determinados bens, já que produtos sustentáveis são mais caros do que os ilegais", explica.

Um dos principais objetivos do estudo é alertar as empresas e os consumidores sobre a importância de adotar modelos de negócios que não financiem a exploração predatória dos recursos naturais ou a exploração desumana de trabalhadores, nem causem danos às populações tradicionais.

Nesse sentido, o estudo busca obter a adesão de novas empresas aos pactos das cadeias de valor dos setores pecuário, produtor de soja e madeireiro. Foi o que ocorreu com duas construtoras paulistanas, a Stuhlberger e a Tecnisa, que estavam entre as empresas mapeadas pela pesquisa. Convidadas a aderir ao Pacto da Madeira, elas se tornaram suas mais novas signatárias. 

LEGITIMAÇÃO DA ILEGALIDADE


Marques Casara, diretor da empresa papel Sociale também autor da pesquisa, destaca a influência de órgãos de governo em ações ilegais. "Hoje há novas formas de fraudar a extração de madeira, que são perpetuadas pelo próprio Estado. NaSecretaria de Meio Ambiente do Pará, por exemplo, há uma quadrilha que frauda o sistema de controle. No Mato Grosso, funcionários do alto escalão foram pegos em um escândalo de esquentamento de madeira", diz.

De acordo com o relatório da pesquisa, ao destacar algumas cadeias produtivas que impactam o meio ambiente, "a intenção não é procurar culpados (até porque, em última instância, todos nós, consumidores, somos responsáveis), mas unir esforços para resolver o problema e monitorar a solução. Com a transparência que uma sociedade que vive na era de informação exige".

Atualmente, a atividade de extração de madeira ilegal no Pará movimenta ao ano cerca de R$ 2 bilhões. De acordo com Valmir Ortega, diretor do Programa Cerrado-Pantanal da Conservação Internacional, uma das questões mais preocupantes é o fato de que a atividade ilegal é legitimada pelos habitantes do local onde ela se encontra: "Os atores que investem em ilegalidades como grilagem, extração de madeira ilegal, supressão de floresta e associação com madeireiras ilegais precisam de um capital inicial de R$ 1 milhão. Após dois anos, a atividade obterá um retorno ao investidor de R$ 15 milhões a R$ 20 milhões. Duvido que haja outra atividade com tal taxa de retorno". 

O mais preocupante, para Ortega, é que boa parte da sociedade acha que esse processo é legítimo: "Há um entendimento de que nessas regiões a lei não pode ser cumprida. É por isso que combater essas práticas é tão difícil". 

POLÍTICAS DE COMPRAS POSITIVAS

Segundo Roberto Smeraldi, diretor da organização Amigos da Terra – Amazônia Brasileira, as políticas de compras que excluem negociações com aqueles que estão em listas de atividades predatórias, como a do desmatamento, não são suficientes: "É preciso adotar políticas positivas, nas quais se decide e se divulga o que se quer comprar, em vez de excluir fornecedores com base em listas amostrais de exclusão".

Para Smeraldi, esse é o momento de abandonar a postura simplista de "limpar a barra". "É preciso estruturar a cadeia, e não excluí-la cada vez mais", afirma.

Para acessar a íntegra do estudo, clique aqui

FONTE

Amigos da Terra – Amazônia Brasileira
Thais Iervolino - Jornalista

Benjamin S. Gonçalves - Jornalista 
Edição