20 de abril de 2012

Os índios e os pinhais do sul do Brasil

   Por Darci Bergmann  


Indias Kaingang no Fórum Social Temático,  em Porto Alegre/RS, janeiro/2012
Foto: Darci Bergmann 
   A Araucaria angustifolia, o nosso pinheiro nativo, fazia parte de extensa cobertura florestal no Sul do Brasil, principalmente nas regiões com altitudes acima dos 400 m em relação ao nível do mar. Na região do Extremo Oeste de Santa Catarina, em Cunha-Porã e arredores, os pinhais eram freqüentes. Às vezes formavam grandes maciços. A chegada dos colonizadores fragilizou essas formações florestais, a tal ponto que o pinheiro nativo quase desapareceu da paisagem.
   A madeira de pinho servia para a construção de casas, móveis e lenha. O pinhão era uma das fontes de alimento.
   Mais tarde, o pinho na forma de pranchas, era destinado à Argentina nas balsas do Rio Uruguai. Depois seguia para a Europa. Assim os pinhais estavam condenados a uma devastação sem precedentes.


Gralha-azul (Cyanocorax caeruleus)
Foto: Atitude Geoecológica



Cotia (Dasyprocta azarae)
Foto:guiaaventura.blogspot.com




  A disseminação das araucárias no ambiente natural sempre foi atribuída à espécie de ave conhecida como gralha-azul - Cyanocorax caeruleus. Esta ave se alimenta dos pinhões e parte deles é enterrada para consumo posterior, mas nem todos são encontrados e assim acabam germinando. Também se atribui ao mamífero cotia - Dasyprocta azarae - a mesma tarefa. Mas pouco tem se falado no manejo florestal feito pelos índios.
   Na minha infância, em Cunha-Porã, pude observar que os índios caigangues* que vagavam pela região, consumiam os pinhões como um dos principais alimentos. Lembro ainda que um dos meus tios produzia telhas com a madeira de pinho. Para isso, só derrubava as árvores secas pelos raios ou alguma outra causa natural. Essa pessoa já tinha consciência de que o desmatamento iria liquidar com os pinhais nativos. Desde aquela época, lá por 1956, eu já tinha a informação de que os índios faziam uma espécie de manejo florestal. Enterravam pinhões, assim como as gralhas e as cotias. Os selvagens conservaram e os civilizados arrasaram a mata nativa.
   Chamou-me atenção, ainda em Cunha-Porã, que uma espécie de jabuticabeira*, muito comum na mata Atlântica do Sul do Brasil, também ocorre nas matas de araucária. Esta espécie é sensível a geadas fortes na fase jovem. No entanto, ela vinga bem ao abrigo de outras árvores. É muito provável que os índios tenham disseminado esta espécie e outras mais nos seus deslocamentos pela região Sul.
   Do que foi exposto, concluo que a espécie humana pode encontrar na história  muitos exemplos de ações ambientais positivas. Na verdade hoje precisamos de mais ações e menos discursos.  
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Notas do blog:
1) Caigangue ou Kaingang ou ainda Guayanás são índios da Família linguística Jê. Seus descendentes são encontrados nos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Outra denominação era Coroados. Segundo a FUNASA(2009) seriam em número de 33.064 indivíduos. 
No site Povos Indígenas no Brasil, está a seguinte resenha sobre essa etnia:O contato dos Kaingang com a sociedade envolvente teve início no final do século XVIII e efetivou-se em meados do século XIX, quando os primeiros chefes políticos tradicionais (Põ’í ou Rekakê) aceitaram aliar-se aos conquistadores brancos (Fóg), transformando-se em capitães. Esses capitães foram fundamentais na pacificação de dezenas de grupos arredios que foram vencidos entre 1840 e 1930. Entre os desdobramentos dessa história, destacam-se o processo de expropriação e acirramento de conflitos, não apenas com os invasores de seus territórios, mas intragrupos kaingang, uma vez que o faccionalismo característico dos grupos jê foi potencializado pelo contato. Os Kaingang vivem em mais de 30 Terras Indígenas que representam uma pequena parcela de seus territórios tradicionais. Por estarem distribuídas em quatro estados, a situação das comunidades apresenta as mais variadas condições. Em todos os casos, contudo, sua estrutura social e princípios cosmológicos continuam vigorando, sempre atualizados pelas diferentes conjunturas pelas quais vêm passando.


2*) Na obra Frutas Brasileiras e Exóticas Cultivadas (Harri Lorenzi et allii), Instituto Plantarum de Estudos da Flora Ltda., é referida a espécie de jabuticabeira Myrciaria trunciflora O.Berg., que ocorre em estado nativo desde Minas Gerais até o Rio Grande do Sul, na Mata Atlântica e na submata dos pinhais. Esta espécie é conhecida popularmente como jabuticaba-de-cabinho, jabuticaba-de-penca, jabuticaba-café e jabuticaba-preta.
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Um comentário:

jeffhyman@ig.com.br disse...

concordo com essa hipotese de manejo florestal por parte dos nativos