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17 de julho de 2013

Retirada de árvore gera polêmica



Por Darci Bergmann

   A remodelação do espaço em frente à Igreja Matriz São Francisco de Borja está causando polêmica. Motivo: retirada de uma árvore da espécie exótica Ficus auriculata, conhecida popularmente por figueira-de-jardim, figueira-vermelha e figueira-chilena. ´
    É compreensível a manifestação da comunidade e seria interessante até que houvesse uma audiência pública na Câmara de Vereadores. Seria o momento para debater certas questões ligadas ao meio ambiente. Lembro que há pouco mais de um ano, a Prefeitura Municipal de São Borja retirou quase uma centena de árvores da Rua Venâncio Aires*. Naquela oportunidade, os moradores encaminharam abaixo-assinado ao Ministério Público, solicitando que houvesse uma audiência, por ser uma obra de grande impacto ambiental. Não só isso. Passeios públicos, muros e grades de residências foram destruídos. Também não se tem conhecimento se houve consulta ao setor competente da Prefeitura e ao Conselho Municipal de Recuperação e Defesa do Meio Ambiente e se este, por iniciativa própria, tomou alguma medida.
    Voltando ao caso da remodelação da Paróquia São Francisco de Borja. A convite, participei de uma reunião no Gabinete do Prefeito Municipal. Houve solicitação de um parecer sobre a situação das árvores no espaço frontal à Igreja Matriz. 
     Em decorrência, eu e a bióloga Melissa Bergmann fizemos uma rápida vistoria no local. O parecer não remunerado que fizemos tem o intuito de contribuir no debate. Foca principalmente a questão das medidas compensatórias, caso uma árvore ou duas devam ser retiradas do local. A decisão final é das autoridades municipais. 
     Um fato positivo em tudo isso, é a postura do Prefeito Farelo Almeida e da parte proponente da obra que buscam dialogar e ouvir setores da comunidade que possam contribuir para o melhor encaminhamento da questão. 
        A seguir, a íntegra do Parecer:

                                            PARECER TÉCNICO
SOLICITANTES: Prefeitura Municipal de São Borja e Sociedade Paroquial São Francisco de Borja.
OBJETIVO: Reestruturação do espaço frontal à Igreja Matriz São Francisco de Borja, atendendo à lei de acessibilidade urbana, com a retirada de uma araucária ( Araucaria angustifolia) e um exemplar de figueira-de-jardim (Ficus auriculata)
HISTÓRICO
Há vários anos existe a intenção da Sociedade Paroquial São Francisco de Borja em fazer melhorias no espaço frontal à Igreja Matriz. Um dos motivos alegados em consulta verbal, já em 2003, seria a construção de rampas que permitissem o acesso de pessoas com necessidades especiais – os cadeirantes. Também houve relato de quedas de pessoas em função dos frutos (figos) da figueira-de-jardim. Embora a Prefeitura faça a varrição e coleta de folhas e frutos em dias de semana, é justamente nos domingos e feriados que o fluxo de pessoas é maior em virtude das missas. É daquela época a constatação de uma situação preocupante em termos de riscos de acidentes, principalmente com relação à Araucaria angustifolia, eis que plantada em local impróprio, há mais de trinta atrás, para enfeite natalino. Já era de conhecimento do prefeito da época, José Pereira Alvarez, que esta espécie de grande porte, teria comprometimento do sistema radicular e poderia cair, como já ocorreu em outras situações semelhantes em áreas urbanas.
Somente agora foi retomada pela Paróquia a intenção de fazer as reformas e adequação do espaço à acessibilidade. Foi solicitado à Secretaria Municipal do Meio Ambiente licença para retirada do exemplar de Ficus auriculata, porém sem apresentação do devido projeto técnico e proposição de medidas compensatórias. A questão foi encaminhada para análise do Conselho Municipal de Recuperação e Defesa do Meio Ambiente – CMRDMA, que deu parecer contrário à retirada da árvore, pois não havia informação suficiente sobre a matéria.

DA VISTORIA REALIZADA EM 16/07/2013
Constatamos que:
1)      O exemplar de Ficus auriculata, espécie exótica, encontra-se inclinado para o lado norte, em função do sombreamento causado pela Araucaria angustifolia e por um exemplar da espécie nativa guabiju (Mircianthes pungens), localizado em terreno contíguo.
2)      O exemplar de Araucaria angustifolia, espécie nativa em vários estados do Brasil tem idade superior a trinta anos. A espécie não ocorre em estado nativo na região de São Borja. Embora de beleza singular, a árvore já mostra sinais de degenerescência na parte apical da copa. Tal fato talvez seja oriundo do estresse climático, pois a espécie é sensível à alta temperatura e à baixa umidade relativa do ar, o que é comum nas primaveras e verões de São Borja, principalmente no centro da cidade.
O solo em volta da árvore está impermeabilizado por piso de concreto e cerâmico, o que dificulta a aeração e aumenta o estresse hídrico.
O tipo de arquitetura da copa, com a inserção horizontal dos ramos e a possibilidade de queda dos mesmos coloca em risco as pessoas, mesmo em períodos de tempo bom. Em dias de ventos fortes o perigo é maior e a árvore corre risco de queda caso continue a degenerar em função das agruras climáticas. Já há casos típicos de mortandade de araucária na cidade. Um exemplo disso é o espécime em degeneração, localizado num terreno, na Rua Aparício Mariense, em frente ao Posto Santa Lúcia, onde já ocorreram quedas de ramos sobre automóveis de um estacionamento.
3)      O projeto de revitalização do espaço em frente à Igreja Matriz, de responsabilidade do Eng. Civil Nelson Ceccon, foi motivado pela posição correta do CMRDMA. O projeto prevê o paisagismo com aumento da área livre - sem revestimento cerâmico – o que aumentará a infiltração das águas pluviais.
4)      Sobre as medidas compensatórias.
Estas não foram apresentadas pela parte proponente, nem tampouco pela Prefeitura Municipal de São Borja, o que motivou a negativa do CMRDMA em se manifestar contra a retirada do exemplar de Ficus auriculata.
Em respeito ao posicionamento do CMRDMA, o Excelentíssimo Sr. Prefeito Municipal Farelo Almeida, após receber comissão da Sociedade Paroquial São Francisco de Borja, solicitou laudo técnico e proposta de medidas compensatórias para serem analisadas pelo setor competente.
5)       Sugestões
Diante do exposto, encaminhamos as seguintes sugestões:
5.1) Cenário em que seriam mantidos os dois exemplares arbóreos já referidos acima, caso não prejudique a instalação da rampa para cadeirantes.
Revitalização do solo ao redor de cada árvore, aumentando a superfície livre em torno do tronco e plantio de espécies herbáceas para forração.
5.2) Cenário em que seriam removidas a araucária e a figueira-de-jardim.
Se esta for a alternativa escolhida, ela evidentemente causará um impacto visual temporário. As copas das árvores já se incorporaram na paisagem local e a remoção causará polêmica. As medidas compensatórias neste caso devem contemplar o plantio de exemplares arbóreos na mesma quadra onde se localiza o espaço a ser remodelado e também em outros locais públicos, conforme a seguir:
5.2.1) Plantio de pelo menos dois exemplares da espécie ipê-roxo (Tabebuia avellanedae), árvore-símbolo do Município (lei Municipal n 1.022/1980, no lado ímpar da Rua Aparício Mariense, quadra em frente à Praça XV de Novembro.
5.2.2) Plantio de trinta exemplares arbóreos nativos da região em vias e ou logradouros públicos, com monitoramento pelo prazo de dois anos, com tratos culturais e reposição se necessário, por parte da Sociedade Paroquial São Francisco de Borja.
5.2.3) Pela Prefeitura Municipal de São Borja - Implantação de uma área verde pública no Bairro da Pirahy, nas imediações da Rua Theobaldo Klaus e Vila Santos Reis, devido ao expressivo aumento populacional naquela área. Isto, de certa maneira, também compensa o plantio das dezenas de árvores retiradas pela Prefeitura na Rua Venâncio Aires, quando das obras de alargamento, sem consulta em audiência pública.

É o parecer

São Borja, 16 de julho de 2013.

EngºAgrº Darci Bergmann                    Bióloga Melissa Bergmann
CREA 21.534                                           CRBio 53938-03

A Araucaria angustifolia acima tem mais de trinta anos.

A figueira-de-jardim acima foi plantada pelo Sr. Corandino Reck,
e tem aproximadamente trinta anos. O tronco apresenta racha-
dura na bifurcação. 
Nota do Blog: O Conselho Municipal de Recuperação e Defesa do Meio Ambiente (CMRDMA), em reunião realizada na data de 18/07/2013, por unanimidade, manifestou-se pelo corte da figueira-de-jardim e da araucária. Assim, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente de São Borja expediu licença à solicitante Sociedade Paroquial São Francisco de Borja, tendo esta assumido o compromisso de plantio compensatório, nos termos da proposta sugerida no parecer técnico acima referido.

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Mais sobre arborização;

20 de abril de 2012

Os índios e os pinhais do sul do Brasil

   Por Darci Bergmann  


Indias Kaingang no Fórum Social Temático,  em Porto Alegre/RS, janeiro/2012
Foto: Darci Bergmann 
   A Araucaria angustifolia, o nosso pinheiro nativo, fazia parte de extensa cobertura florestal no Sul do Brasil, principalmente nas regiões com altitudes acima dos 400 m em relação ao nível do mar. Na região do Extremo Oeste de Santa Catarina, em Cunha-Porã e arredores, os pinhais eram freqüentes. Às vezes formavam grandes maciços. A chegada dos colonizadores fragilizou essas formações florestais, a tal ponto que o pinheiro nativo quase desapareceu da paisagem.
   A madeira de pinho servia para a construção de casas, móveis e lenha. O pinhão era uma das fontes de alimento.
   Mais tarde, o pinho na forma de pranchas, era destinado à Argentina nas balsas do Rio Uruguai. Depois seguia para a Europa. Assim os pinhais estavam condenados a uma devastação sem precedentes.


Gralha-azul (Cyanocorax caeruleus)
Foto: Atitude Geoecológica



Cotia (Dasyprocta azarae)
Foto:guiaaventura.blogspot.com




  A disseminação das araucárias no ambiente natural sempre foi atribuída à espécie de ave conhecida como gralha-azul - Cyanocorax caeruleus. Esta ave se alimenta dos pinhões e parte deles é enterrada para consumo posterior, mas nem todos são encontrados e assim acabam germinando. Também se atribui ao mamífero cotia - Dasyprocta azarae - a mesma tarefa. Mas pouco tem se falado no manejo florestal feito pelos índios.
   Na minha infância, em Cunha-Porã, pude observar que os índios caigangues* que vagavam pela região, consumiam os pinhões como um dos principais alimentos. Lembro ainda que um dos meus tios produzia telhas com a madeira de pinho. Para isso, só derrubava as árvores secas pelos raios ou alguma outra causa natural. Essa pessoa já tinha consciência de que o desmatamento iria liquidar com os pinhais nativos. Desde aquela época, lá por 1956, eu já tinha a informação de que os índios faziam uma espécie de manejo florestal. Enterravam pinhões, assim como as gralhas e as cotias. Os selvagens conservaram e os civilizados arrasaram a mata nativa.
   Chamou-me atenção, ainda em Cunha-Porã, que uma espécie de jabuticabeira*, muito comum na mata Atlântica do Sul do Brasil, também ocorre nas matas de araucária. Esta espécie é sensível a geadas fortes na fase jovem. No entanto, ela vinga bem ao abrigo de outras árvores. É muito provável que os índios tenham disseminado esta espécie e outras mais nos seus deslocamentos pela região Sul.
   Do que foi exposto, concluo que a espécie humana pode encontrar na história  muitos exemplos de ações ambientais positivas. Na verdade hoje precisamos de mais ações e menos discursos.  
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Notas do blog:
1) Caigangue ou Kaingang ou ainda Guayanás são índios da Família linguística Jê. Seus descendentes são encontrados nos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Outra denominação era Coroados. Segundo a FUNASA(2009) seriam em número de 33.064 indivíduos. 
No site Povos Indígenas no Brasil, está a seguinte resenha sobre essa etnia:O contato dos Kaingang com a sociedade envolvente teve início no final do século XVIII e efetivou-se em meados do século XIX, quando os primeiros chefes políticos tradicionais (Põ’í ou Rekakê) aceitaram aliar-se aos conquistadores brancos (Fóg), transformando-se em capitães. Esses capitães foram fundamentais na pacificação de dezenas de grupos arredios que foram vencidos entre 1840 e 1930. Entre os desdobramentos dessa história, destacam-se o processo de expropriação e acirramento de conflitos, não apenas com os invasores de seus territórios, mas intragrupos kaingang, uma vez que o faccionalismo característico dos grupos jê foi potencializado pelo contato. Os Kaingang vivem em mais de 30 Terras Indígenas que representam uma pequena parcela de seus territórios tradicionais. Por estarem distribuídas em quatro estados, a situação das comunidades apresenta as mais variadas condições. Em todos os casos, contudo, sua estrutura social e princípios cosmológicos continuam vigorando, sempre atualizados pelas diferentes conjunturas pelas quais vêm passando.


2*) Na obra Frutas Brasileiras e Exóticas Cultivadas (Harri Lorenzi et allii), Instituto Plantarum de Estudos da Flora Ltda., é referida a espécie de jabuticabeira Myrciaria trunciflora O.Berg., que ocorre em estado nativo desde Minas Gerais até o Rio Grande do Sul, na Mata Atlântica e na submata dos pinhais. Esta espécie é conhecida popularmente como jabuticaba-de-cabinho, jabuticaba-de-penca, jabuticaba-café e jabuticaba-preta.
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