Mostrando postagens com marcador Aquecimento global. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Aquecimento global. Mostrar todas as postagens

30 de julho de 2014

Carne bovina tem pegada de carbono pior do que se pensava

Novos estudos mostram que a carne bovina contribui mais para emissão de gases do efeito estufa e degradação ambiental do que produção de outras proteínas de origem animal, como laticínios, aves domésticas, carne suína e ovos, juntas.


Não é novidade que o consumo excessivo de carne pode ser muito prejudicial à saúde humana, aumentando a propensão a problemas como pressão e colesterol altos, excesso de peso, etc. Mas os problemas podem ir muito além da saúde humana, afetando também o meio ambiente e aumentando as emissões de gases do efeito estufa (GEEs). É o que mostram novas pesquisas publicadas recentemente nos periódicos Proceedings of the National Academy of Sciences(PNAS) e Climatic Change.

O estudo publicado no 
PNAS sugere que as emissões da pecuária, que são responsáveis por 14,5% da liberação total de GEEs pelas atividades humanas, estão aumentando, e que a carne bovina é responsável por mais GEEs do que a produção de outras proteínas de origem animal, como laticínios, aves domésticas, carne suína e ovos, juntas.

Embora essa descoberta não seja exatamente nova, é a proporção da pegada de carbono que assusta: a pesquisa mostra que a carne bovina exige 28 vezes mais terra para ser produzida, 11 vezes mais água e seis vezes mais fertilizante nitrogenado do que as outras quatro categorias, e resulta em cinco vezes mais emissões de GEEs.

Além disso, o estudo comparou a utilização de recursos da produção pecuária com a do cultivo de vegetais que são fonte de proteínas, como arroz, batata e trigo e concluiu que todos os tipos de carne emitem mais GEEs do que as culturas analisadas.

"A produção de batata, trigo e arroz, em média, exige de duas a seis vezes menos recursos por caloria consumida do que a carne não bovina. Entender os impactos das diferentes classes de pecuária pode dar aos consumidores e legisladores poder de mitigarem danos ambientais através da escolha da dieta e da política agropecuária", afirma o relatório do 
PNAS.

Outro estudo semelhante, divulgado no periódico 
Climatic Change, indica que, de 1961 a 2010, as emissões de GEEs da pecuária em 237 países aumentaram 51%.

Especificamente, os cientistas descobriram que a carne e laticínios de bovinos são responsáveis por cerca de 71% das emissões pecuárias, com 54% vindo da carne e 17%, dos laticínios. Isso é em parte devido à abundância do animal, mas também por causa dos altos níveis de metano que ele emite. As ovelhas são responsáveis por 9% das emissões, os búfalos, por 7%, os porcos, por 5%, e as cabras, 4%.

E muito disso se deve ao aumento da demanda por carne, especialmente em nações em desenvolvimento. A equipe observou uma diferença gritante entre as emissões pecuárias dos países em desenvolvimento, que são mais responsáveis por esse aumento, e as das nações desenvolvidas.

E acredita-se que essa diferença deva aumentar, já que a demanda por carne, laticínios e ovos deve dobrar até 2050 em países em desenvolvimento. As nações desenvolvidas já chegaram ao máximo de suas emissões pecuárias nos anos 1970, e têm diminuído desde então.

"O mundo em desenvolvimento está se tornando melhor em reduzir as emissões de efeito estufa causadas pelos animais, mas essa melhoria não está acompanhando a crescente demanda por carne. Como resultado, as emissões de GEEs da pecuária continuam subindo em boa parte do mundo em desenvolvimento", comentou Dario Cario, pesquisador do estudo.

"Esses hambúrgueres saborosos são os verdadeiros culpados. Seria melhor para o meio ambiente se todos nos tornássemos vegetarianos, mas uma série de melhorias podem ocorrer da ingestão de carne suína ou de frango em vez de bovina", disse Ken Caldeira, que trabalhou com Cario, mas não é autor do trabalho.

Uma terceira pesquisa confirma a declaração de Calderia. Segundo o estudo, também apresentado no 
Climatic Change, as pessoas que comem carne produzem o dobro da quantidade de emissões de GEEs em relação aos veganos devido a suas dietas.

O relatório observou tudo, desde a produção, transporte, armazenamento e cozimento até o descarte de alimentos, que contribui para as emissões de GEEs. Foram avaliadas as dietas de mais de 50 mil pessoas no Reino Unido.

O resultado aponta que as pessoas que comem carne de maneira moderada (50 a 99 gramas de carne por dia), contribuem com 5,63 Kg de dióxido de carbono equivalente (CO2e) para a atmosfera a cada duas mil calorias consumidas, enquanto os veganos contribuem com 2,89 Kg de CO2e.

Os veganos têm as menores emissões de gases do efeito estufa devido à sua dieta, seguidos pelos vegetarianos (3,81 Kg de CO2e), os que consomem apenas carne de peixe (3,91 kg de CO2e) e os que consomem menos de 50 gramas de carne por dia (4,67 kg de CO2e). Já os que comem bastante carne (100 gramas por dia ou mais) geram 7,19 Kg de CO2e.

A pesquisa também menciona que a população do Reino Unido está comendo mais carne do que nunca, tendo passado de um consumo anual de 69,2 kg em 1961 para 84,2 kg de carne por ano atualmente.

"Esse trabalho demonstra que reduzir o consumo de carne e outros produtos de origem animal pode dar uma contribuição valiosa à mitigação das mudanças climáticas", informaram os autores.

Por fim, estimativas do 
Environmental Working Group mostram que, se toda a população dos Estados Unidos adotasse uma dieta vegetariana, seria o equivalente a retirar 46 milhões de carros das ruas, e que se uma pessoa comesse apenas um hambúrguer a menos por semana durante um ano, seria o equivalente a não dirigir seu carro por 514 quilômetros.

De fato, há muito o que uma pessoa pode fazer para tentar reduzir sua pegada de carbono: andar menos de carro, consumir mais produtos que evitem a emissão de GEEs em sua produção e transporte, e consumir mais proteína vegetal e menos animal. Talvez nem todos possam se tornar vegetarianos ou veganos, mas reduzir o consumo de carne já é um primeiro passo para diminuir sua contribuição às mudanças climáticas.

FONTE

Carbono Brasil
Fonte acessada pelo blog: AGROSOFT, publicado em 28-07-2014, seção Economia

16 de maio de 2014

Menos florestas, menos água

Por Darci Bergmann


  Em teoria, a maior parte das pessoas sabe que as florestas são importantes na preservação dos mananciais hídricos. Na prática, árvores e florestas inteiras são removidas ante a expansão crescente das cidades e da agricultura. Conciliar essas questões tem sido difícil. Uma das razões é que a população humana cresce desordenadamente.
    O crescimento demográfico exige mais espaço físico para moradias, produção de alimentos, bens de consumo e muita água. As crises da falta de água, que antes pareciam distantes e restritas às regiões mais áridas, podem se tornar mais frequentes em cidades e regiões mais densamente povoadas, diante do novo cenário de mudanças climáticas.
         Isto explica em parte o que vem ocorrendo na região metropolitana de São Paulo. A rápida expansão urbana destruiu o cinturão de florestas, impermeabilizou e reduziu a infiltração das águas de recarga dos mananciais num raio de dezenas de quilômetros. Sem falar na poluição e assoreamento dos rios. Num cenário de chuvas normais, os sistemas de captação permitiram a expansão urbana prevista, mas cada vez mais vulnerável. E o inusitado ocorreu com a seca prolongada na região Sudeste, minguando os mananciais de abastecimento.    
     Crises de água, como a de São Paulo, devem remeter à reflexão de todos os consumidores e autoridades. Os consumidores devem assumir o seu papel, deixando de gastar irresponsavelmente um bem de valor inestimável. Também podem buscar soluções locais de captação de águas das chuvas, reutilização das águas servidas, etc. Simplesmente criticar este ou aquele gestor não resolve o problema. As autoridades podem criar dispositivos para os novos tempos num cenário de incertezas do clima. 
   Dentre as medidas que as autoridades podem estabelecer, está a de estimular a preservação dos recursos hídricos com o pagamento de serviços ambientais aos proprietários rurais. Por exemplo: recuperação de nascentes, reflorestamento, etc. Redução de impostos a produtos e serviços de reciclagem e reuso da água, tanto para a agricultura, quanto nas atividades industriais e mesmo a nível domiciliar. Neste contexto, é muito válido o desconto a quem reduzir o consumo como já está em vigor em São Paulo. É um reconhecimento das autoridades a quem poupa um bem tão valioso quanto a água, especialmente numa época de seca, da qual ninguém está imune. 
    



Mais sobre o tema: 1) Os nossos solos também são cisternas de água

2) Matéria publicada no site da DW

3) Falta d'água em cidades tem a ver com a devastação desenfreada da Amazônia (Reportagem do Fantástico, Rede Globo, edição de 31-08-2014).

Desmatamento agravou crise da água em SP

Sistema Cantareira perdeu 70% de mata em duas décadas. Cobertura vegetal aumenta a vida útil dos reservatórios, além de prolongar tempo de abastecimento durante seca.

Depois de atingir o menor nível já registrado – apenas 8,4% da sua capacidade –, o sistema Cantareira, principal fornecedor de água da região metropolitana de São Paulo, vai em busca das últimas gotas. Nesta quinta-feira (15/05), a Sabesp inicia uma operação emergencial para recuperar o chamado "volume morto" do reservatório.
A crise no abastecimento de água não se deve apenas ao calor recorde e ao menor índice de chuvas já registrado nos últimos 84 anos. Especialistas defendem que o desmatamento em bacias hidrográficas contribui para diminuir a quantidade e a qualidade das águas, tanto superficiais quanto subterrâneas.
"Nós temos apenas 30% de área com florestas preservadas nesse manancial [Sistema Cantareira]. O restante precisa ser recuperado ou têm uso inadequado de solo", afirma a coordenadora da Rede das Águas da SOS Mata Atlântica, Malu Ribeiro.
Resultados de um experimento feito pela ONG desde 2007 – que restaura uma floresta num centro em Itu, interior de São Paulo – comprovam essa relação. "Em 2012, apenas cinco anos depois, foi verificado que o nível dos lençóis freáticos subiu 20% e o dos reservatórios, 5%", argumenta Ribeiro.
Estudos apontam que a floresta atua como reguladora do ciclo hidrológico, atenuando os impactos de eventos climáticos extremos, como secas e enchentes. "A floresta aumenta a resiliência dos mananciais. O desmatamento não é causa da seca, mas, se houvesse maior cobertura vegetal, o esgotamento dos reservatórios poderia ser evitado", diz Ribeiro.
O problema, entretanto, não está restrito a São Paulo. De acordo com um levantamento inédito do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, os reservatórios considerados críticos pela Agência Nacional de Águas (ANA) perderam em média 80% de sua cobertura florestal.
"Ainda estamos detalhando o estudo, mas já podemos perceber que uma das semelhanças entre os mananciais críticos em relação ao abastecimento de água é o desmatamento", explica o coordenador geral do Pacto e diretor para Mata Atlântica da Conservação Internacional, Beto Mesquita.
A pesquisa inclui as capitais do litoral do país, além de Belo Horizonte, Curitiba e São Paulo, bem como cidades do interior paulista, como Sorocaba e Campinas.
Abastecimento de água da metrópole paulista está ameaçado


O papel da floresta
A floresta tem uma série de funções no ciclo hidrológico. Quando a chuva cai num terreno com cobertura vegetal, a água infiltra lentamente no solo, até atingir os lençóis freáticos. Aos poucos, ela aflora nas nascentes e enche os rios, até chegar às represas.
"A floresta quebra a energia da chuva, porque parte da água fica na cobertura das árvores e atinge o chão devagar. Além disso, o solo da mata é muito poroso, com matéria orgânica e raízes. Por isso, há mais espaço interno e maior capacidade de armazenamento", explica Mesquita. Ele aponta também que, por essa característica, o solo da floresta libera um fluxo de água mais constante, mesmo durante uma estiagem.
Malu Ribeiro ressalta que o desmatamento ao redor do Cantareira está prejudicando a oferta de água na região. "O sistema está localizado no fundo do vale do Rio Jaguari, que tem um conjunto de nascentes na Serra da Mantiqueira. O desmatamento no curso dos rios até o reservatório faz com que essas nascentes desapareçam e os cursos d'água não consigam se recuperar."
Enchentes e assoreamento
Onde não há floresta, a infiltração da chuva no terreno é mais difícil. Num solo de pastagem, por exemplo, a quantidade de água escoada é até 20 vezes maior que em área de vegetação, segundo o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Philip Fearnside.
Por esse motivo, em período de muita precipitação, áreas desmatadas estão mais sujeitas a enchentes. A água escoa rapidamente e em quantidade, enchendo os rios e represas, muitas vezes de forma desastrosa. Neste processo, a água carrega consigo muito material orgânico, erodindo o terreno e assoreando os reservatórios.
"Esse é um problema grave no Brasil e principalmente no Sistema Cantareira, porque perdemos a capacidade de reservar água. Quando chove muito, o excedente acaba sendo jogado fora", argumenta Ribeiro.
Segundo Mesquita, por evitar o assoreamento, a floresta aumenta a vida útil do reservatório, além de prolongar o tempo de abastecimento durante uma seca.
Umidade e qualidade da água
Outra importante função da floresta é reter água da atmosfera. Na bacia do Rio Guandu, no estado do Rio de Janeiro, 30% da água é incorporada ao sistema por essa via, segundo estudo da Conservação Internacional. "Quando vêm a neblina e nuvens carregadas, quanto mais floresta tiver em regiões montanhosas, maior a retenção de água", diz Mesquita.
A floresta contribui para manter a umidade do ar, através da transpiração das plantas. "Cerca de 30% da água na atmosfera vêm das florestas. Num reservatório, se o ar está seco, isso também aumenta a evaporação na represa", alerta o presidente e pesquisador do Instituto Internacional de Ecologia de São Carlos, José Galízia Tundisi.
A vegetação também participa no ciclo hidrológico, atuando como um filtro para manter a qualidade da água. "A floresta retém metal pesado em suas raízes e matéria em suspensão. Ela também filtra a atmosfera e diminui a quantidade de partículas que podem cair na água", afirma Tundisi.
Um levantamento deste ano da Fundação SOS Mata Atlântica em sete estados também comprova essa relação entre floresta e a qualidade da água. Dos 177 pontos avaliados, apenas 19 (11%), localizados em áreas protegidas e de matas ciliares preservadas, tiveram bons resultados.
Floresta amazônica também influencia regime de chuvas em São Paulo

    Desmatamento na Amazônia
Não é apenas a perda de floresta nos mananciais que pode ameaçar a oferta de água em São Paulo. O desmatamento na Amazônia também impacta negativamente a quantidade de chuva que chega ao sudeste.
Estudos revelam que até 70% da precipitação em São Paulo, na estação chuvosa, depende do vapor d'água amazônico. O meteorologista Pedro Silva Dias, da Universidade de São Paulo, também pesquisa o tema. "O desmatamento na Amazônia vem causando impacto, por exemplo, a produção de arroz no Brasil. Se houver um processo muito intenso de perda de floresta amazônica, as regiões sul e sudeste sofrerão um processo de desertificação", defende Ribeiro.
Philip Fearnside diz que esse desmatamento, em torno de 20%, não explica a seca atual em São Paulo. "Ainda tem 80% da floresta amazônica, isso não é suficiente para causar uma queda dramática na chuva de São Paulo de um ano para o outro", diz o pesquisador, que ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2007, com outros cientistas, por alertar contra os riscos do aquecimento global.
Fearnside ressalta, entretanto, que o impacto é gradual e progressivo. "Se continuar desmatando, como é o plano do governo com os projetos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), vai diminuir o fluxo de água para São Paulo, que já está no limite para o abastecimento. Cada árvore que cai, é menos água indo para lá."
Mentalidade do esgotamento
Para os especialistas, há uma mentalidade voltada para o esgotamento dos mananciais, que prejudica a gestão dos recursos hídricos no Brasil.
"É a falsa cultura da abundância, a ideia de que podemos esgotar os reservatórios, porque depois vem o período de chuvas e enche de novo. Só que há uma diminuição do volume de águas ao longo das décadas em vários reservatórios do sudeste. Em São Paulo, isso ocorre na bacia do Piracicaba e na bacia do sistema Cantareira", afirma Ribeiro.
José Galízia Tundisi chama esse pensamento de "aqueduto romano". Consiste em usar o reservatório até esgotar e depois buscar água limpa em uma região mais distante. "É o que São Paulo está fazendo. Em breve vai ter que pegar água no Paraná", afirma o pesquisador.
Os pesquisadores alertam que é muito difícil recuperar um manancial depois de exaurido. O solo fica pobre e seco, funcionando como uma esponja. "Quando chover, o terreno vai chupar grande volume de água, até que ele recomponha os aquíferos subterrâneos. Em alguns casos é até impossível reverter a degradação", diz Ribeiro.
Com a retirada do "volume morto" do Cantareira, especialistas temem pela recuperação do reservatório. A reserva, que nunca foi usada antes, será puxada por bombas, já que fica abaixo do ponto de captação da represa."Se usar todo o volume morto do Cantareira, vai levar anos para retornar ao que era antes", lamenta Tundisi.

15 de janeiro de 2014

Extremos climáticos





O verão no Brasil tem sido extremamente quente, já nos Estados Unidos o frio está castigando as cidades. Esses extremos climáticos são consequência do aquecimento global? Qual o peso da mão do homem nesses eventos? E como o nosso corpo reage a essas mudanças de temperatura? Este é o assunto do JC Debate. Para responder a essas perguntas o programa recebe Maria Assunção Dias, professora titular doDepartamento de Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP), e o médico clinico da escola paulista de medicina, Paulo Olzon.


FONTE

TV Cultura

Links referenciados

Departamento de Ciências Atmosféricas
www.dca.iag.usp.br

Universidade de São Paulo
www.usp.br

TV Cultura
www.tvcultura.com.br

11 de setembro de 2013

Brasil mais quente e seco pode desencadear crise

Com aumento da temperatura e queda das chuvas, estudo diz que floresta amazônica pode virar savana até 2100. Cenário ameaça desencadear crise nos setores agropecuário e energético.



Até 2100, a robusta floresta amazônica pode dar lugar a uma paisagem dominada pela savana. A Caatinga, bioma do semiárido mais rico em fauna e flora do mundo, vai virar deserto. Em todo o território nacional, a temperatura média pode aumentar 6ºC. As projeções fazem parte do primeiro estudo que analisa os efeitos das mudanças climáticas no Brasil, e estão sendo apresentadas no Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), que segue até a próxima sexta-feira (13/09).
Com um Brasil mais quente e mais seco, o setor energético e a agricultura serão os mais atingidos. "Essas informações científicas devem ser consideradas no planejamento energético do país. Para a agricultura é a mesma coisa", avalia Andrea Santos, secretária-executiva do PBMC.
No futuro, a mudança de cenário vai forçar a migração de algumas culturas – como a do café, que precisa de um clima mais ameno. "Esses impactos no setor agrícola vão demandar melhoramento genético e recursos para a adaptação", complementa Andrea.
"Daqui a 100 anos, a agricultura brasileira terá que ser diferente para se adaptar às mudanças climáticas", sentencia por sua vez Carlos Nobre, membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e secretário do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. "Não é muito correto fazer previsões e dizer que não haverá adaptação que faça frente", adiciona, lembrando que medidas de adaptação estão em curso.
Temperatura deve aumentar 6°C na Amazônia


Força-tarefa nacional
O relatório é fruto do trabalho de 345 pesquisadores. Eles vasculharam as publicações científicas dos últimos seis anos e o relatório do IPCC. Concluíram que, até 2100, a queda no volume de chuvas na Amazônia deve chegar a 45%, e a temperatura aumentará até 6°C na região. Somadas aos efeitos do desmatamento, as mudanças climáticas vão contribuir para a savanização.
Os cenários climáticos previstos pelo relatório apontam o aumento das secas e estiagens prolongadas não só na Amazônia, mas também no Cerrado e na Caatinga e uma elevação da temperatura em todo o país, causando alterações nos ecossistemas.
Para a Caatinga, é esperada uma elevação de até 4,5°C na temperatura e uma redução de até 50% da precipitação. "Essas mudanças podem desencadear o processo de desertificação", conclui o relatório. No Cerrado, para o mesmo período, estima-se um aumento de 5,5°C e uma diminuição de 45 % no volume de chuva.
Já nos Pampas, deve ocorrer um aumento de 40% na precipitação e de 3°C na temperatura até 2100. Apesar de as previsões terem sido formuladas para ao longo do século, algumas transformações no clima já podem ser percebidas atualmente.
"Nós já observamos aumento de temperatura e alteração no padrão de precipitação em várias regiões do Brasil, bem como o aumento das frequências de eventos climáticos extremos como chuvas e inundações", afirma Paulo Artaxo, coordenador do programa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) sobre estudos em mudanças climáticas, que também participou do relatório.
Crise anunciada
As periferias nas grandes cidades são as regiões mais expostas aos efeitos das mudanças climáticas. "O processo desordenado de ocupação gerou grande vulnerabilidade", pontua Nobre. Há algumas décadas, catástrofes provocadas por chuvas intensas, por exemplo, eram registradas a cada dez anos. Atualmente, são de dois a três episódios por ano.
Outro impacto muito sério apontado por Nobre é a tendência de haver menos água disponível na região semiárida do Nordeste. "Essa é a região semiárida mais populosa do mundo. Vai faltar água para o abastecimento humano. Agricultura vai se tornar menos provável no futuro." A região, marcada pela seca, já sofre especialmente com a falta de chuva dos últimos dois anos.
Se globalmente não houver uma rápida redução dos gases, a região da América do Sul deve ser uma das mais afetadas do mundo – a grande biodiversidade, principalmente da Amazônia, corre um sério risco. "Até 40% das espécies podem não conseguir sobreviver", comenta nobre. A equação é intangível: ainda não existem estudos que quantifiquem economicamente o que o desaparecimento de espécies significaria.
No Cerrado as chuvas devem diminuir 45%

Aumento do nível do mar
Além dessas mudanças, também já foram identificadas a elevação do nível do mar, alterações nas características das massas de água do oceano e aumento da salinidade em alguns locais.
"O nível do mar está aumentando e variações de 20 a 30 cm esperadas para o final do século 21 já devem ser atingidas, em algumas localidades, até meados do século ou até antes disso", aponta o estudo.
No Brasil, essa alteração vem sendo reportada pela comunidade científica desde o final dos anos 1980. A intensificação do processo erosivo na costa brasileira na última década é consequência, além da mudança dos padrões de ventos e ondas, também dessa elevação.
O principal vilão do aquecimento global são as emissões de gases de efeito estufa. As maiores fontes de emissão no país são o desmatamento da Amazônia – apesar das reduções significativas nos últimos anos –, o setor agropecuário, a indústria e o setor de transporte com a queima de combustíveis fósseis.
"Colcha de retalhos"
Para o coordenador do Programa de Mudanças Climáticas e Energia do WWF Brasil, Carlos Rittl, o país ainda não desenvolveu uma política integrada para enfrentar o tema. "Apesar de algum progresso nos últimos anos, a agenda climática do Brasil ainda é marginal e não integrada aos grandes planos de desenvolvimento do país,” afirma Rittl.
A organização ambiental critica a destinação dos investimentos do setor de energia: cerca de 700 bilhões de reais vão para os combustíveis fósseis, ou seja, 70% do total destinado ao setor. Desta forma, o país desperdiçaria o grande potencial das fontes renováveis de baixo impacto, como a eólica, solar, biomassa e biocombustíveis, argumenta o WWF.
Outra contradição vista pelo grupo é o investimento de mais de 107 bilhões de reais para produção agrícola e expansão agropecuária, setor que liderou o ranking de emissões do país em 2010, responsável por 35% do total. "Além de representar imensa pressão sobre as florestas nativas do país", adiciona.
Falta coerência, na opinião do WWF Brasil. Governos e instituições financeiras têm que aumentar os seus investimentos em energia renovável e sustentável e, aos poucos, devem eliminar os gastos em combustíveis fósseis. "O Brasil precisa seguir o mesmo caminho. E não é o que está acontecendo até agora,” conclui Rittl.
  • Data 10.09.2013
  • Autoria Clarissa Neher / Nádia Pontes
  • Edição Rafael Plaisant

27 de agosto de 2012

O clima esquentou. E agora?



Por Darci Bergmann


 Tem sido recorrente a questão das mudanças climáticas. Indiferente aos questionamentos levantados pelos chamados ‘céticos’, os quais alegam que tais mudanças estão desvinculadas da ação humana, estamos sentindo os efeitos de um clima alterado.
   Na espécie humana, os efeitos são visíveis pela vulnerabilidade das pessoas, quando ficam mais expostas a certas doenças. O inverno na região sul do Brasil tem sido atípico. Ora frio intenso, como no início de julho do ano em curso. Ora temperaturas altas acima de 35° C como as constatadas em pleno mês de agosto aqui em São Borja. Mencione-se ainda a escassez de chuvas bem abaixo da média normal nos últimos dez meses.

A geada preta


  Em começos de julho ocorreram geadas fortíssimas na região Sul brasileira. As temperaturas baixaram bruscamente, ocorrendo o fenômeno conhecido popularmente como ‘geada preta’. Em caso assim, congela a seiva das plantas e ocorre ruptura dos tecidos, com mortandade de ramos e muitas vezes das plantas. As conseqüências da ‘geada preta’ foram devastadoras. Pomares e viveiros afetados, inclusive espécies vegetais nativas. Outro exemplo: a cultura de mandioca, também conhecida como aipim, foi prejudicada. Faltam ramas para o plantio na transição inverno-primavera e agora elas vêm de outros estados a preços exorbitantes.  Depois, as temperaturas subiram e um ‘clima de verão’ acontecia em pleno inverno, forçando a liquidação antecipada das roupas quentes no comércio da região. Por ironia, nesta última semana de agosto, o frio retornou, ocorrendo geadas em algumas regiões.
   As plantas reagem de diferentes formas a essas mudanças. Em algumas espécies de árvores a propagação por sementes ficará comprometida. A época de floração varia, ocorrem distúrbios na polinização por insetos e outros fatores mais que resultam na ausência ou diminuição de frutos e sementes em muitas espécies. Outras, ao contrário, são estimuladas à floração após um choque de frio, mas podem ser prejudicadas depois pela escassez de chuvas.
Caulifloria, isto é, floração no caule e ramos.
A jabuticabeira* exibiu intensa floração ainda
em plena época de inverno.  

   Nenhuma espécie fica imune às alterações climáticas. O equilíbrio entre elas, em qualquer ecossistema, também será afetado. Com o tempo essas mudanças serão mais conhecidas e também melhor avaliadas as ações humanas diante do novo cenário climático que se descortina.  
* Também se usa o termo jaboticabeira para expressar o nome comum dessa espécie 
____________________________________________________
Outros efeitos do aquecimento:
Degelo no Ártico
Mapa mostra encolhimento do gelo no Oceano Ártico desde 1979, segundo medição da Nasa (Foto: Nasa divulgação) Fonte acessada: G1

27 de março de 2012

Temperaturas podem subir 3°C já em 2050, diz estudo


26/03/2012   -   Autor: Fabiano Ávila]   -   Fonte: Instituto CarbonoBrasil/Agências Internacionais

Resultado de milhares de simulações conduzidas em computadores de voluntários mostra que o aquecimento global está mais rápido do que se pensa e cientistas alertam para a necessidade de colocar em prática ações de mitigação e adaptação


Atualmente, os dados do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) são os mais adotados para a projeção do aumento das temperaturas médias. A entidade afirma que até o fim do século veremos uma alta entre 1,8°C e 4°C, o que já causaria uma maior frequência de desastres climáticos e provocaria consequências como o aumento no nível do mar, queda na produção de alimentos e migrações em massa.

Porém, mesmo a previsão do IPCC pode ser muito conservadora e existe a chance de estarmos vivendo um aquecimento global bem mais acelerado do que pensamos.

Quem afirma isso é um estudo publicado neste domingo (25) no periódico Nature Geoscience, que apresenta dados das mais de 10 mil modelagens climáticas realizadas com a ajuda de computadores domésticos dos voluntários do projeto climateprediction.net.

Segundo essas simulações, as temperaturas médias devem subir entre 1,4°C e 3°C até 2050. Vale lembrar que o máximo defendido por cientistas para evitar as piores consequências das mudanças climáticas seria 2,5°C.

“Os resultados preocupam porque mostram que mesmo o cenário mais pessimista é plausível”, afirmou Dan Rowlands, líder do estudo, da Universidade de Oxford.

De acordo com o cientista, o modelo utilizado pela pesquisa é o mais complexo já proposto e agrega alguns fatores e incertezas que outras simulações desconsideraram.

“Apenas levando em conta essas incertezas, o que foi possível graças à ajuda dos computadores de voluntários, podemos tentar simular as complexidades do nosso clima”, explicou Rowlands.

Analisando dados dos últimos 50 anos e assumindo que essas informações do passado são confiáveis para prever o que vai acontecer daqui para frente, o estudo chegou à conclusão de que qualquer aquecimento entre 1,4°C e 3°C está na faixa do “provável”.

“A temperatura média da Terra durante a década de 2000 a 2010 foi quase 1°C acima da média entre 1960 e 1990”, afirmou Rowlands.

Esse aquecimento mais rápido do que o previsto precisa ser levado em conta pelos governos, alertam os cientistas.

“Melhores medidas de mitigação devem ser planejadas desde já para estarmos preparados se essa previsão de um aquecimento de mais de 2,5°C nas próximas décadas se confirmar”, afirmou Corinne Le Quere, diretora do Centro Tyndall de Pesquisas de Mudanças Climáticas da Universidade de East Anglia.

O projeto climateprediction.net já envolve mais de 30 mil voluntários, que permitem que modelos climáticos sejam rodados em seus computadores domésticos.

“É um esforço ambicioso e demonstra como cidadãos podem contribuir para a sociedade e para a ciência climática”, disse o coautor do estudo Ben Booth, do Met Office.

12 de outubro de 2011

Clima terrestre. Britânicos suspendem teste de geoengenharia.

Britânicos suspendem teste de geoengenharia para manipulação deliberada do clima terrestre
  Comentários :: Publicado em 11/10/2011 na seção noticias :: Versões alternativas: Texto PDF


Um projeto para injetar água do mar a uma altitude de 1 km na atmosfera, conduzido por pesquisadores de quatro universidades do Reino Unido, não será mais realizado neste mês de outubro de 2011. O plano, que envolvia suspender uma mangueira por meio de um balão de hélio, seria um teste preliminar de uma família de estratégias de geoengenharia - a manipulação deliberada do clima terrestre - para combater os efeitos do aquecimento global.

Chamado
 Spice (sigla em inglês de Stratospheric Particle Injection for Climate Engineering, ou Injeção de Partículas na Estratosfera para Engenharia do Clima), o programa investiga a viabilidade de se lançar partículas na alta atmosfera para refletir parte da energia do Sol de volta ao espaço.

O teste previsto originalmente para outubro, mas agora suspenso por pelo menos seis meses, não teria a capacidade de afetar o clima: um modelo realmente funcional teria de injetar partículas a uma altitude de 20 km. O teste em escala serviria para gerar dados sobre o comportamento do balão e da mangueira.
 

De acordo com o material de divulgação do projeto, o efeito de resfriamento global esperado de uma aplicação dessa estratégia seria comparável ao de uma grande erupção vulcânica, um tipo de evento que lança grandes quantidades de material à base de enxofre na estratosfera.

Os pesquisadores envolvidos no Spice citam como exemplo a
 erupção do Monte Pinatubo, nas Filipinas, me 1991, que causou uma redução de 0,5º C na temperatura média global, ao longo dos dois anos seguintes.

PRESSÃO POLÍTICA

De acordo com o site da revista
 New Scientist, o teste foi adiado depois de uma forte pressão exercida pela ONG ETC, baseada no Canadá.

Em cartas enviadas a autoridades britânicas, a organização acusava o experimento de violar acordos internacionais como a Convenção de Biodiversidade das Nações Unidas, que impõem uma moratória na implementação de estratégias de geoengenharia até que seus efeitos ambientais sejam bem estudados.

Mas um especialista ouvido pela revista aponta que o teste do Spice não deveria ser visto como uma violação desse princípio, já que não teria o potencial de, realmente, afetar o clima. Mas alguns grupos ambientalistas consideram que a simples realização do teste representaria um "Cavalo de Troia" para a introdução efetiva de tecnologias de geoengenharia.
 

Também há o temor de que a opção de manipulação tecnológica do clima seja usada como pretexto para que medidas mais urgentes, como a redução das emissões de dióxido de carbono por atividade humana, sejam adiadas.

A nota do Conselho de Pesquisas em Engenharia e Ciências Físicas do governo britânico que anunciou a suspensão do teste informa, apenas, que a decisão foi tomada para "permitir mais tempo de interação com as partes interessadas. Adotamos uma abordagem responsável de inovação com este projeto", diz o texto. "E nossa decisão de interromper o teste reflete conselhos que recebemos de nosso comitê consultivo".
 

A oposição à geoengenharia não vem só de ONGs, no entanto. Em 29 de setembro de 2011, o
 Parlamento Europeu aprovou uma resolução sobre meio-ambiente que, entre outras disposições, manifesta "oposição a propostas de geoengenharia de larga escala". O mesmo texto reconhece "a importância da pesquisa, desenvolvimento e inovação, e a necessidade de cooperação científica e tecnológica."

RECOMENDAÇÕES DOS EUA

A despeito da perda de prestígio na cena europeia, a pesquisa sobre geoengenharia recebeu, no início de outubro, um impulso de um grupo de estudos nos Estados Unidos, o
 Bipartisan Political Center (BPC).Relatório divulgado em 4 de outubro de 2011 pede que o governo federal americano lance um "programa coordenado de pesquisas para explorar a eficácia potencial, viabilidade e consequências de estratégias de remediação climática".

O relatório afirma que "os riscos da mudança climática são reais e estão aumentando", e que "os riscos geopolíticos e para a segurança nacional da adoção de tecnologias de remediação climática por outros países ou agentes são reais".
 

Com base nisso, indica que os EUA deveriam pesquisar se alguma estratégia de "remediação climática" poderia representar uma resposta significativa aos riscos da mudança climática, e avaliar que medidas outros países podem ser levados a tomar. Os Estados Unidos deveriam "liderar as importantes conversações internacionais que provavelmente surgirão" a respeito do assunto.
 

ROYAL SOCIETY

Em 2009, a
 Royal Society do Reino Unido publicou um relatório de mais de 90 páginas intitulado Geoengineering the climate: science, governance and uncertainty, que avaliava a viabilidade de diversas opções propostas para a manipulação deliberada do clima, notando logo no início a "ausência de informação acessível e de qualidade" a respeito de tais propostas.

O trabalho divide os vários planos sugeridos em dois grupos -- remoção de dióxido de carbono, com as estratégias para retirar o excesso de gás causador do efeito estufa da atmosfera; e controle da radiação solar, envolvendo propostas para reduzir a energia do Sol que chega á superfície do planeta.

O relatório conclui que as opções de geoengenharia "só deveriam ser consideradas como parte de um pacote mais amplo de alternativas", incluindo reduções nas emissões de gases causadores do efeito estufa, e que ainda assim os métodos relacionados à remoção do dióxido de carbono são preferíveis. No entanto, o texto diz que, numa situação de "emergência climática", técnicas para refletir a luz solar de volta ao espaço podem representar "a única forma de reduzir as temperaturas globais".

FONTE
 

Inovação Unicamp
Carlos Orsi
 - Jornalista
Telefone: (19) 3521-4876
E-mail:
 contato@reitoria.unicamp.br

______________________________________________________________________
Saiba mais sobre o clima:
Uma persistente La Niña está de volta
Por Stephen Leahy, da IPS
La Niña voltou menos de três meses após sua última e poderosa manifestação, que ajudou a disparar os preços mundiais dos alimentos. A nova Niña, fase fria da Oscilação do Sul, prolongará a falta de chuvas em importantes regiões agrícolas do Brasil e da Argentina, e no sul dos Estados Unidos, afetando colheitas de soja e trigo.
Não é raro que La Niña se apresente em vários anos consecutivos, disse Jeffrey Masters, diretor de meteorologia e cofundador deWeather Underground, primeiro serviço meteorológico comercial na internet. A última vez que ocorreu foi em 1998 e 2001, "com intervalo de poucos meses de condições neutras, como neste ano de 2011", explicou ao Terramérica.

La Niña e El Niño são, respectivamente, as caras fria e quente do El Niño Oscilações do Sul (Enos), fenômeno climático marítimo cíclico que afeta os padrões meteorológicos em todo o mundo. O Enos é parte do sistema que regula o calor no trópico oriental do Oceano Pacífico e está pautado por mudanças na temperatura da superfície oceânica e na pressão atmosférica. Entretanto, mal começamos a entender como o Enos se manifestará no futuro em razão da mudança climática, advertiu Masters.

A aparição anterior do La Niña foi em junho de 2010. Na Austrália desatou fortes chuvas que puseram fim a dez anos de seca, mas que inundaram cerca de 850 mil quilômetros quadrados, quase a área que França e Alemanha ocupam juntas. Também causou inundações sem precedentes no norte da América do Sul, por exemplo, na Colômbia e norte do Brasil. Ao mesmo tempo, o centro e o sul de Brasil eArgentina e o sul do continente sofreram secas.

"As projeções indicam que esta Niña será mais fraca", afirmou Masters. Contudo, seus impactos serão amplificados porque muitas regiões ainda não se recuperaram do La Niña anterior. América Central, Venezuela, Colômbia e outras regiões, que em dezembro e janeiro sofreram inundações sem precedentes, podem esperar mais precipitações fortes nos próximos meses, segundo as previsões, acrescentou.

Devido à mudança climática, a atmosfera terrestre é, em média, 0,8 grau mais quente do que na era pré-industrial e por isso retém 4% mais de vapor de água, disse ao Terramérica, por e-mail, o especialista em clima Kevin Trenberth, do National Centre for Atmospheric Research, com sede em Boulder, o Estado norte-americano do Colorado. "A umidade extra acompanha as temperaturas marinhas e tem impacto em tudo. Nos lugares que estão mais quentes durante o La Niña, há mais risco de inundações", destacou.

Os modelos climáticos computadorizados ainda não conseguem prever como a mudança climática afetará o complexo ciclo do Enos, que pode durar entre três e sete anos, afirmou Trenberth. Embora as inundações e as secas tenham piorado, não há evidências claras de que a mudança climática afetou o Enos, alertou. Masters prevê que oLa Niña atual atingirá seu clímax em janeiro e se diluirá na primavera boreal [do hemisfério norte]. Isto levará tempo seco ao Texas e a outras partes do sul dos Estados Unidos que já sofrem uma seca extrema.

"As secas tendem a gerar sistemas de alta pressão que atuam reforçando as condições que produzem a própria seca", disse Masters. Este ano caíram no Texas menos de 127 milímetros de chuva, quebrando todos os recordes e causando perdas agropecuárias de US$ 5 bilhões. A agricultura da região enfrenta um caminho longo e difícil que exigirá várias temporadas de fortes chuvas para se recuperar, acrescentou.

Os técnicos do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos(USDA, da sigla em inglês) acreditam que, continuando o La Niña, haverá "uma grande probabilidade" de fracassar a colheita de inverno de trigo e "um possível fracasso dos cultivos de verão" em 2012 nas planícies do sul do país. O Oil World, um serviço de previsão agrícola com sede na cidade alemã de Hamburgo, prevê que a soja e outros cultivos estarão ameaçados por condições mais secas em boa parte da Argentina e no sul e centro do Brasil.

"O centro do Brasil sofrerá condições de secas incomuns desde meados de abril", diz um informe do Oil World, divulgado dia 30 de setembro de 2011. Em algumas zonas da Argentina choveu muito menos do que a metade do que se considera normal. Sem chuvas, as colheitas de outubro e novembro podem ir à bancarrota, segundo o informe.

Os preços mundiais dos alimentos estão 26% mais altos do que há um ano, segundo o Índice da FAO, publicado em setembro pelaOrganização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação(FAO). As reservas de cereais estão baixas, mas a FAO estima que os rendimentos mundiais de trigo serão 2,8% mais altos do que em 2010, embora esta previsão seja de junho, antes de se saber com certeza do La Niña atual.

Fonte:Agrosoft/Tierramérica