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25 de novembro de 2012

As construções avançam e as árvores sucumbem

A foto do Google mostra um exemplar de guapuruvu com mais
de 30 metros de diâmetro de copada, em pleno centro da cidade de
São Borja. Era uma referencia. Veja abaixo o que fizeram com a árvore. 


Com mais de um metro de diâmetro, o tronco do guapuruvu
imponente sustentava uma copa de flores amarelas nas
primaveras de São Borja.


Por Darci Bergmann
    Os lotes urbanos bem arborizados de São Borja estão se tornando raros. Fato comum em muitas outras cidades brasileiras. As construções geram conflitos com as grandes árvores, algumas centenárias. Na briga por espaço, as árvores saem perdendo. Nem a legislação consegue frear o ímpeto imobiliário que devasta o verde urbano. A legislação que protege é a mesma que pode legitimar o corte de árvores, dependendo de como a lei é interpretada. 
   Uma alegação frequente é que a construção civil gera emprego e renda e as árvores não deveriam atrapalhar essa possibilidade. Apesar dos avanços na legislação ambiental, a sociedade em geral ainda tem uma visão de progresso que não inclui os serviços ambientais proporcionados pelas árvores urbanas. Talvez, por isso, a remoção de grandes árvores seja ainda aceita pela maioria das pessoas. E o pior, no caso de algumas cidades, é que os gestores públicos não se preocupam em compensar as perdas das áreas verdes particulares com a implantação de espaços públicos arborizados. O desconforto das altas temperaturas nas áreas densamente edificadas talvez deflagre uma revisão de conceitos. Muitas vezes, um bem só é valorizado quando já o perdemos. Foi assim com as matas e os bichos das nossas infâncias. Talvez seja assim com as últimas árvores de grande porte das nossas cidades.     Nessa época de escancarada fanfarra com dinheiro público, bem que a sociedade poderia cobrar dos gestores municipais maior empenho na preservação das nossas árvores e na implantação de mais áreas verdes.   

17 de janeiro de 2011

Tragédia no Rio era previsível, mas falta à sociedade cultura de prevenção

BRASIL | 13.01.2011


Subordinação à especulação imobiliária e aos interesses da indústria da construção civil, e negligência do governo na construção de habitações sociais são causas da tragédia no Rio de Janeiro, diz professor da UFRJ.

A dimensão humana da tragédia provocada pelas chuvas no estado do Rio de Janeiro é mostrada também na Europa, nas imagens de rios que se abriram em encostas e da busca e resgate das vítimas. Até a tarde desta quinta-feira (13/01), haviam sido contabilizados mais de 350 mortos e as chuvas persistiam.
O grande volume de água provocou deslizamentos de terra nas cidades serranas de Teresópolis, Nova Friburgo e Petrópolis. O governador do estado, Sérgio Cabral, declarou que recursos estão sendo providenciados para a reconstrução dos municípios – importantes centros turísticos – que sofreram "em função de uma força da natureza, combinada com ocupação irregular do solo".
"Com todo respeito ao governador, essa é uma declaração absolutamente tola. A culpa pelas tragédias desse tipo não é da natureza. (...) Não existem tragédias naturais, só existem tragédias sociais, que se resumem na forma em como a sociedade organiza a ocupação e sua relação com o ambiente", contesta Carlos Vainer, especialista em planejamento urbano e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
As cidades mais afetadas têm em comum o fato de se localizarem em áreas montanhosas, na cadeia da Serra do Mar. Segundo pesquisadores, a região sofre há décadas com ocupação ilegal e irresponsável. O próprio governador teria culpado as prefeituras por não coibirem as construções em áreas de risco. 
Tragédia anunciada
No início de 2010, a imprensa mundial acompanhou o resgate dramático de centenas de corpos em morros onde casas, e mesmo bairros inteiros, foram soterrados pela lama. "Esta é a crônica da tragédia anual anunciada", lamenta Vainer.
Para Rubem Cesar Fernandes, presidente da organização não governamental Viva Rio, mais do que a presença do estado, a participação civil também é fundamental. "Embora seja um fenômeno recorrente, a sociedade brasileira não tem uma cultura de prevenção arraigada. O estilo de ocupação é muito informal, ela é espontânea, sem controle, sem orientação de políticas públicas."
Mais uma vez, fica comprovada a inexistência de política de controle de ocupação. "E quando a tragédia vem, não temos uma cultura de pronta resposta. É como se o governo fosse responsável por tudo. A defesa civil não é bem equipada, em geral, para enfrentar o tamanho do problema. É preciso uma revolução cultural", reivindica Rubem Cesar.
Ao lado do poder público, escolas, igrejas, associações de moradores e organizações locais precisariam participar mais desse trabalho de prevenção e de convencimento das pessoas sobre os riscos que enfrentam ao construir ilegalmente, sugere o presidente da Viva Rio.
Imagem aérea mostra região de deslizamento em TeresopólisImagem aérea mostra região de deslizamento em Teresopólis
Subordinação e negligência

Sob a ótica do especialista Carlos Vainer, trata-se de uma questão histórica. Para ele, dois fatores determinam a distribuição do espaço urbano no Rio de Janeiro: a subordinação da cidade à especulação imobiliária e aos interesses da indústria da construção civil, "e a negligência total do governo na construção de habitações de interesse social".
"Devido à falta de habitações para a população pobre, essas pessoas se dirigem a áreas de grande inclinação sujeitas a desmoronamentos", ressalta Vainer. 
Nesse episódio recente, entretanto, alguns bairros ricos e condomínios fechados, como na cidade de Petrópolis, foram intensamente atingidos. "E isso mostra a negligência do poder público ao ser condescendente com a especulação imobiliária e autorizar projetos que não poderiam ter sido licenciados. Mas os interesses fundiários e da indústria da construção civil falam mais alto".
O pesquisador ressalta ainda outra questão polêmica. "As mortes, toda essa tragédia, não são provocadas pela falta de recursos. Dinheiro tem. Ele só está sendo gasto de forma errada, desproporcional."
Autora: Nádia Pontes
Revisão: Roselaine Wandscheer
Fonte: DW