Mostrando postagens com marcador carnaval e meio ambiente. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador carnaval e meio ambiente. Mostrar todas as postagens

20 de fevereiro de 2012

Carnaval não é lixo

Por Darci Bergmann   

    "Em alguns políticos a melhor fantasia seria o nariz do pinóquio"

   Há quem diga que o carnaval é só alegria. Nos meus tempos de moço, a folia era mais espontânea. Não tinha aquela manifestação opulenta das fantasias de hoje que entopem de lixo as ruas por onde passa a orgia consumista. Era tudo simples, o que prova que alegria e felicidade não precisam de ostentação.
   Os costumes mudaram até nas pequenas cidades O que era popular vira espetáculo, um grande negócio. Entram em cena competição, cartolagem e talvez outras coisas não muito lícitas. E os recursos públicos são cada vez mais requisitados, em nome de uma suposta ‘cultura popular’. A diversão manipulada, com ajuda da politicagem estabelecida, talvez retire do carnaval o seu maior encanto – a alegria espontânea.
  Parece que algumas cidades estão reagindo à essa manipulação das festas   populares. As pessoas colaboram para que o carnaval seja de novo simples e alegre e que não comprometa orçamentos domésticos e nem os recursos públicos que podem melhorar a saúde, a educação e segurança. Até porque, se as estatísticas estiverem certas, em muitas cidades, a maioria do povo não faz carnaval. E quem não faz - porque tem outras formas de extravasar a alegria - também não quer financiar com os seus impostos o esbanjamento escancarado cujo saldo mais lamentável são toneladas de lixo, consumo excessivo de bebidas alcoólicas e acidentes de trânsito
   Outra constatação é a padronização cultural dos eventos. Os desfiles dos grandes centros contagiaram de tal forma as pequenas cidades que muitas delas perderam a identidade do seu carnaval. É um repeteco barulhento da chatice dos sambas enredo. Mas há quem goste dessa mesmice.
   Engana-se quem pensa que os desfiles de carros alegóricos com aquelas imitações de bichos e plantas conscientiza alguém na questão ambiental. Aqueles monstrengos de ferro e plásticos viram sucata e lixo. A orgia luxuriosa de uma espécie não salva as demais. Nem salvou os impérios opulentos da ruína. E agora já é uma ameaça à apoteose da vida planetária. Se quiserem mesmo preservar a biodiversidade, existem outras formas para tal.
   Para mim, o mais importante é ser feliz sem ostentação e luxúria. Com ou sem carnaval. Hoje, outras formas de exibição me trazem alegria. Até exulto quando vejo os bugios fazendo das copas das árvores as suas passarelas. Lá estão eles, sem máscaras, sem fantasias, sem samba enredo, sem corrupção. Por onde passam também deixam algum resíduo – os seus excrementos – mas estes são biodegradáveis. E mais: contém sementes que podem resultar em novas plantas. 
   Para sermos felizes precisamos transformar em lixeira o nosso Planeta? 
__________________________________________________________
Mais sobre o tema:
Carnaval no Rio: Entre o samba e o lixo no pé
Outros carnavais

15 de fevereiro de 2010

OUTROS CARNAVAIS


Por Darci Bergmann

A origem do carnaval está ligada à agricultura. Antes do advento do Cristianismo, alguns povos festejavam as boas colheitas e o costume pagão se espalhou no Ocidente. A tradição milenar das festas de regozijo e de agradecimento tem variantes que adentram as religiões. Algumas etnias preservam tradições e costumes, numa diversidade cultural equivalente, em importância, à própria biodiversidade. As festas sagradas e profanas por vezes se misturam. Outras vezes ocorrem numa mesma comunidade, mas os atores sociais mudam conforme as ideologias de cada um. Até Beethoven, na bela Sexta Sinfonia, conhecida como a Pastoral, apresenta uma parte chamada Festa na Aldeia. A tradição gaúcha, o forró nordestino, o bumba-meu-boi do norte, a música sertaneja, a cultura indígena, os costumes afros, as oktoberfest da etnia germânica e o próprio carnaval, entre outras manifestações profanas e religiosas, fazem do Brasil um celeiro multicultural. Essas manifestações também geram emprego e renda. Divulgam artesanato, cultura, produtos da região e alimentam o turismo. Esse é o lado bom e que deveria predominar sempre. No entanto, algumas festas tem sido usadas por alguns indivíduos para extravasar sentimentos negativos. O consumo de bebidas alcoólicas, além do normal, potencializa atitudes agressivas, o desrespeito, enfim o bom relacionamento. Pior ainda é outro componente trágico que invade a arena pública das festas. Os traficantes de drogas ditas ilícitas estão de plantão, infiltrados em grupos ingênuos. Ao menor descuido, conseguem uma presa.

Desde milênios ocorrem festas. Eu mesmo participei de muitas delas. Fiz carnaval na minha juventude e o faria agora não fosse uma constatação: O excesso de barulho e o excesso de bebida alcoólica, aliado a um trânsito caótico que termina ceifando vidas ou as mutilando.

Talvez eu esteja ultrapassado no meu modo de ver as coisas. Talvez não. Nos carnavais dos quais eu participei, as músicas não diferiam muito das de agora. Nem a alegria era menor. As fantasias eram simples, quase sempre de papel que virava húmus. As bebidas estavam em garrafas retornáveis. Depois da festa não havia muito lixo. Dependendo o tamanho do salão, a orquestra tocava sem equipamento de amplificação. O barulho não superava a arte e o galanteio se expressava também em palavras. Ocorriam algumas escaramuças, mas sem maior gravidade. Automóveis ainda eram poucos e os acidentes muito raros. Nem se fazia tumulto na via pública, na saída dos bailes. O sossego público era respeitado. Mesmo numa festa caseira, sempre havia o cuidado de não perturbar a vizinhança. Esses eram outros carnavais.

Seria possível mesclar alguns bons costumes dos carnavais antigos com os dos carnavais de hoje? Sempre haverá carnaval e nós foliões do passado e do presente poderemos transformá-lo num estado de arte, sem violência, sem droga, sem poluição sonora e sem transformar em lixeira as nossas ruas. Esses são outros carnavais. Depende apenas de nós.

Foto: Darci Bergmann