26 de outubro de 2011

Somos 7 bilhões - é possível oferecer bem-estar a todos?


MUNDO | 26.10.2011


Cada habitante da Terra tem direito a uma vida digna, água, comida, educação, moradia e saúde. Se todos seguirem o estilo de vida dos países ricos, seriam necessários três planetas, dizem os especialistas.

Ela nasce por estes dias: a pessoa que, até o final de outubro, elevará a 7 bilhões o cálculo estatístico do crescimento populacional do planeta. O termo empregado pelos especialistas é "explosão demográfica": nos últimos 200 anos ocorreu o mais veloz crescimento da população na história da humanidade.
Até 2050 deverão ser até mesmo 9,1 bilhões de habitantes. Cada um deles com direito a uma vida digna, água e alimento, educação, moradia e saúde. E quase todos sonham com um pouquinho de prosperidade, geralmente segundo os padrões ocidentais de qualidade de vida.
Mas o globo será capaz de comportar tudo isso? "Se todos seguirem o estilo de vida norte-americano ou ocidental, isso não será possível", descarta o cientista Ernst Ulrich von Weizsäcker, especialista em meio ambiente e membro do Conselho para o Futuro do Mundo (WFC, em inglês), fundado em 2007, em Hamburgo. "Para tal, seriam necessários três planetas Terra."
Modelo falido
Há 40 anos, a ideia do crescimento ilimitado já era posta em dúvida pelo Clube de Roma em seu famoso estudo Limits to growth (Limites do crescimento). "Diante da população crescente, contudo, o fim do crescimento é mera ficção", afirma o político verde alemão Ralf Fücks.
Especialistas pedem apoio aos pequenos agricultores nos países em desenvolvimentoEspecialistas pedem apoio aos pequenos agricultores nos países em desenvolvimentoJean Ziegler, perito das Nações Unidas para o assunto, não vê problemas mesmo para alimentar 12 bilhões de pessoas no globo. Contudo somente se os alimentos forem melhor distribuídos e as regiões rurais e os pequenos agricultores no hemisfério sul receberem apoio de forma sustentável. Devido à carência de recursos em diversos setores, "continuar do jeito que está" só é possível por mais algum tempo.
Segundo os prognósticos da ONU, em breve a Índia tomará o lugar da China como o país mais populoso do mundo, enquanto mingua o número de habitantes das nações industrializadas ocidentais. Ao mesmo tempo, essas sociedades minguantes e os populosos emergentes são os maiores consumidores de recursos naturais: alimentos, água, terras e combustíveis fósseis, assim como metais nobres envolvidos na produção de tecnologia digital.
É a era fóssil que de fato chega aos seus limites, diagnostica Fücks. Segundo o político verde, nem o atual sistema de energia nem o sistema de transportes erguido sobre o petróleo barato são "globalizáveis".
Multiplicar recursos
Há projeções de que, devido às mudanças climáticas globais já em curso, as temperaturas médias em todo o mundo possam se elevar em cerca de 4ºC no decorrer do século. Caso esses temores se tornem realidade, dentro em breve 330 milhões de pessoas serão forçadas por devastadoras inundações a abandonar seus locais de residência.
Inundações como as das Tailândia são outro desafioInundações como as das Tailândia são outro desafioSomente em Bangladesh, a cifra dos atingidos chegaria a 70 milhões. Porém outros extremos climáticos também podem tornar inabitáveis certas regiões do mundo, elevando ainda mais a pressão sobre as reservas de água potável, os alimentos e as terras.
Não se pode mais tentar superar o problema da escassez de recursos seguindo o modelo progressista do "cada vez maior, mais alto e mais forte". Tal noção é absurda, afirma Von Weizsäcker. Também a promessa de progresso através dos mercados globais e liberalizados perdeu a validade. Pelo contrário, critica o cientista: "A crença religiosa no poder criador dos mercados revelou-se avassaladoramente equivocada, o mais tardar desde a crise financeira de 2008. Os mercados podem causar danos inacreditáveis".
É preciso "re-regulamentar", paralelamente a reformas radicais em direção à eficiência no uso de recursos, exige Von Weizsäcker. "Em termos bem banais, isso significa retirar de um metro quadrado de terra, de um kilowatt/hora ou de um metro cúbico de água três, quatro, dez vezes mais bem-estar. E isso é tecnicamente possível." Não se trata de nenhuma utopia, enfatiza, mas sim de uma nova meta real, na qual a Alemanha deveria ser pioneira.
Nova onda verde
Essa noção de uma era moderna ambiental é discutida na Alemanha – e não apenas pelo Partido Verde e no recém-inaugurado Fórum do Progresso, da Fundação Friedrich Ebert (ligada ao Partido Social Democrata). O tema também concerne uma recém-formada comissão do Parlamento alemão. Sob o título "Crescimento, bem-estar, qualidade de vida", o grupo de trabalho transpartidário examinará possibilidades de desvincular o crescimento do consumo de recursos.
Empregos "verdes" para as gerações futuras de uma população em crescimento também estão entre as prioridades da Organização Mundial do Trabalho. Recentemente, seu secretário-geral, Juan Somavia, manifestou-se a favor de organizar uma economia pobre em emissões de CO2, em conexão com uma nova política ambiental e social.
No entanto, a atenção de políticos e parlamentos ainda está voltada para o atual modelo econômico e para a superação da crise econômica. Até que ponto a comunidade internacional já está comprometida com o bem-estar de uma população mundial em crescimento só ficará claro em dezembro próximo, quando se realiza na África do Sul a cúpula do clima da ONU.
Autoria: Ulrike Mast-Kirschning (av)
Revisão: Alexandre Schossler
Fonte: Deutsche Welle
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MUNDO | 27.10.2011

O crescimento populacional e o desafio de alimentar a todos

O planeta já abriga 7 bilhões de pessoas. Alimentar tanta gente é possível, dizem os especialistas, mas é necessário aumentar a produtividade de solos e sementes. E comer menos carne também ajuda.

A população do planeta cresce em 83 milhões de pessoas por ano: um pouco mais do que o total dos habitantes da Alemanha. Caso essa tendência se mantenha, em 2050 já haverá 9 bilhões de pessoas no mundo, e até o final do século serão mais de 10 bilhões.

Para saciá-las, seria necessário pelo menos duplicar, se não triplicar, a produção agrícola nos próximos 40 anos. Será possível alcançar essa meta com os recursos limitados de nosso planeta? Segundo o professor de agronomia Harald von Witzke, da Universidade Humboldt de Berlim, a resposta é "sim".

Mas um "sim" seguido de um "porém". O enorme crescimento da produção agrícola nas últimas décadas deve-se 80% ao aumento da produtividade. Apenas 20% são o resultado da ampliação das áreas agricultáveis. "No futuro, precisaremos investir ainda mais no aumento de produtividade para satisfazermos as crescentes necessidades humanas de alimento. O solo será, cada vez, um fator limitante para a produção de gêneros alimentícios", diz Von Witzke.

No momento, 40% da superfície terrestre são usados para a agricultura. Uma área de 16 milhões de quilômetros quadrados – o tamanho da América do Sul – é dedicada aos cereais; 30 milhões de quilômetros quadrados – a superfície da África – são pastos. Os melhores solos, os mais férteis, já são cultivados. Em diversas regiões não existem mais reservas de terra passíveis de utilização na produção de alimentos.

As nações em desenvolvimento são a exceção. Segundo dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês), nelas apenas um terço da superfície teoricamente agricultável é cultivada de fato. Entretanto, até mesmo por questões de proteção ao clima global, não se pode considerar a transformação de florestas e mangues tropicais em áreas de cultivo.

Fator fundamental: a água

A superpopulação do planeta é um problema já hojeA superpopulação do planeta é um problema já hojeA alternativa que fica é o aumento da produtividade – uma alternativa, no entanto, comprometida e freada por diversos fatores. Em primeiro lugar encontram-se os dois elementos encarecedores água e energia. A agricultura consome as maiores quantidades de água em todo o mundo.

Previsivelmente, a escassez do ouro azul deverá ser o tema central dos próximos anos, observa o vice-diretor geral da FAO, Alexander Müller. "Estudamos a distribuição da água pela superfície terrestre e constatamos que a falta de água será mais grave nas zonas com maior crescimento demográfico." Isso significa que, justamente nos países em que a produção de alimentos precisa aumentar, faltam os requisitos básicos.

Uma das fórmulas para a solução é "eficiência", como propõe o estudo da equipe internacional de pesquisa da Universidade de Minnesota encabeçada por Jonathan Foley. No futuro, só as terras que realmente valem a pena devem ser irrigadas e fertilizadas. Por exemplo, em territórios áridos não deveriam mais ser cultivadas plantas que necessitem muita água.

No tocante à fertilização, pesquisas demonstraram que a metade dos adubos empregados em todo o mundo simplesmente acaba penetrando solo adentro, em vez de nutrir as plantas. Um desperdício que também acarretou a duplicação das taxas de fósforo e nitrato no meio ambiente, o que, por sua vez, causa a poluição da água: um círculo vicioso que deve ser rompido a todo custo.

Para elevar a atual produtividade, são necessárias, acima de tudo, melhores espécies vegetais e melhores métodos de plantio. Segundo o estudo de Minnesota, com isso já seria possível aumentar em 60% a produção global de alimentos.

"Melhores espécies" significa, por um lado, cereais e verduras especialmente produtivos e resistentes às condições climáticas rigorosas. Por outro lado, cabe elevar o potencial nutritivo desses vegetais, pois já hoje a carência alimentar é um problema. Leguminosas contendo mais ferro, painço com mais zinco, batatas, milho e arroz com maior quantidade de provitamina A: isso poderia ser alcançado pelo desenvolvimento de novos cultivares ou também pela engenharia genética.

O problema da carne

Soldados franceses entregam alimentos em Ruanda, durante a guerra civil do paísSoldados franceses entregam alimentos em Ruanda, durante a guerra civil do paísSeria mais fácil assegurar a alimentação no mundo se menos gente consumisse carne e outros produtos animais. Pois os animais precisam ser nutridos, e a produção de suas rações concorre com o cultivo de alimentos para a população humana – da mesma forma que com o plantio de vegetais para a produção de biocombustíveis.

Porém é ilusório esperar que ocorra uma renúncia aos produtos de origem animal: a tendência é, antes, o aumento de seu consumo. Assim, os cientistas pleiteiam que, no futuro, os solos mais férteis sejam reservados ao cultivo de gêneros alimentícios básicos. Sobretudo na América Latina, na África e no Leste Europeu há solos excelentes, cujas safras podem ser elevadas significativamente – enquanto as produções de rações e bioenergia devem ser relegadas aos campos restantes.

Novos desafios estruturais

No futuro, os efeitos da produção de mais carne, ovos e laticínios também se farão sentir sobre o clima. Atualmente, 30% das emissões de gases-estufa provêm da atividade agrícola. Sabe-se que o aumento de CO2 e metano na atmosfera atingirá especialmente as regiões do planeta com maior crescimento demográfico: são os países emergentes e os mais pobres que enfrentarão ainda mais secas, enchentes e outras catástrofes naturais.

Segundo Alexander Müller, da FAO, essa situação colocará a questão da alimentação no mundo diante de novos e graves problemas estruturais. "Todo debate sobre a alimentação no mundo precisa se ocupar com os novos focos de demanda, que estão nos países emergentes, nas regiões urbanas e nas nações cujo desenvolvimento econômico permite que apenas parte de seu potencial de demanda chegue aos mercados."

Em outras palavras: quase todos esses lugares são importadores de gêneros alimentícios, mas em geral não possuem o dinheiro necessário para comprá-los em volume suficiente no mercado mundial. O agrônomo Harald von Witzke também acentua esse fato: "O que agrava ainda mais o estado das coisas é o fato de esses países só disporem de sistemas rudimentares de pesquisa agronômica, de forma que é muito difícil para seus agricultores se adaptarem à mudança climática global".

Mais pesquisa e cooperação

Consumo de carne agrava problema mundial de alimentaçãoConsumo de carne agrava problema mundial de alimentaçãoSegundo os especialistas, esse quadro precisa mudar: pesquisa agrícola e uma política agrária direcionadas, assim como a ênfase na agricultura também no campo da ajuda ao desenvolvimento, poderão melhorar significativamente a situação. Enquanto em 1980 a parcela da agricultura na cooperação para o desenvolvimento era de 19%, em 2007 ela não passava de 3,5%.

Nos países pobres, falta aconselhamento para métodos de cultivo mais eficientes, formação profissional, créditos mais acessíveis, boas sementes e informações sobre as possibilidades de comercialização. O resultado é que quase a metade de todas as safras nesses países se perde devido ao combate ineficiente às pragas, a formas erradas de colheita, a problemas no transporte e na armazenagem. Também faltam informações de como comercializar melhor a produção.

Outro problema são os numerosos conflitos. Se os países não são capazes de aproveitar seu potencial agrícola devido a guerras civis e má governança, é impossível esperar que apresentem avanços agrícolas e maiores safras.

Quantas pessoas o planeta pode nutrir? Num ponto, todos os peritos são unânimes; não existe nem jamais existirá uma receita pronta para assegurar o abastecimento do mundo. Os recursos do planeta poderiam alimentar também 10 bilhões de habitantes, se necessário. Contudo, essa equação global provavelmente nunca fechará, pois a população mundial cresce mais justamente onde a situação de alimentação hoje já é mais precária.

Autoria: Sabine Kinkartz (av)
Revisão: Roselaine Wandscheer

21 de outubro de 2011

Prefeitura aniquila árvores.


Rua Venâncio Aires, em São Borja/RS.
Obras da Prefeitura estreitaram o passeio público e já suprimiram dezenas de árvores.
 Aqui  nesse ponto , o passeio terá  praticamente a largura do conteiner.
Fotos: Darci Bergmann, 21/10/2011


Por Darci Bergmann

A pretexto de fazer melhorias na rua Venâncio Aires, tornando-a de  mão única no sentido Centro-Bairro do Passo, a prefeitura de São Borja está promovendo um verdadeiro arboricídio urbano. 

   Depois de décadas de ações de arborização, a maioria por iniciativa dos moradores daquela artéria, eis que a prefeitura de São Borja quer impor na marra um projeto que já está causando um grande impacto ambiental. Já por muitas semanas os transtornos aos moradores são  grandes. Poeira, passeios públicos danificados e estreitados, pedras amontoadas, buracos e a retirada de árvores frondosas que forneciam ótima sombra aos moradores.

Obras não levam em conta os anseios dos moradores

Os passeios públicos, em alguns trechos, ficarão reduzidos a pequenas trilhas com largura pouco maior de um metro. Isto significa: Menos segurança aos transeuntes, remoção de centenas de árvores já existentes, dificuldades em arborização futura, prejuízos aos proprietários que terão de consertar os passeios públicos e outros transtornos mais.

A prefeitura descumpre a legislação

Uma obra assim de grande impacto sócio-ambiental, precisa ser discutida com a população atingida, pois envolve também custos futuros aos moradores. Nada foi discutido previamente. Não houve uma audiência pública com os atingidos diretamente pela obra. Não se tem conhecimento de EIA - Estudo de Impacto Ambiental, necessário para obras desse porte e de comprovado impacto sobre a arborização da cidade.
A proprietária do prédio reformou o passeio que será reduzido a partir do ponto indicado por ela.
De quase 3 m passará a 2,09m. As árvores serão retiradas de acordo com o projeto absurdo. 



Crime ambiental 

A lei complementar 24/2000 incorporou no seu texto os decretos sobre arborização urbana que vigoravam desde 1991. Essa lei está sendo descumprida em vários de seus artigos pelo próprio ente fiscalizador e licenciador, que é a Prefeitura de São Borja.

Ninguém é contra a via de mão única.

O que se discute é a falta de diálogo com os moradores e o estreitamento desnecessário dos passeios e a conseqüente retirada das árvores. Dá-se mais valor aos automóveis do que às pessoas. O projeto é um desastre ambiental e uma irresponsabilidade com a mobilidade urbana tão propalada pela prefeitura nas suas fanfarronadas publicitárias. Ora, não há necessidade de esculhambar passeios públicos arborizados, jogando ainda o custo dos reparos aos contribuintes.
A rua Venâncio Aires, em São Borja/RS. Há necessidade de retirar árvores frondosas
para implantar mão única?

Houve tempo em que tais questões eram discutidas em audiências públicas. Assim foi com relação ao Plano Diretor e as sucessivas alterações deste. A mão única na rua Venâncio Aires é uma aspiração popular, mas ficou sempre claro que não deveria prejudicar os passeios públicos e a arborização já existentes.
Recebi inúmeras manifestações de moradores e pessoas da cidade sobre os fatos trazidos à tona. Fui um dos que estimularam o plantio de árvores em toda a cidade. Sei que em casos especiais de risco à segurança das pessoas algumas árvores precisam ser suprimidas. Mas não todas as árvores de uma rua.
A hora é de mobilização.
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Mais fotos da Rua Venâncio Aires
Sombra e conforto ameaçados. As obras na Rua Venâncio Aires vão reduzir pela metade a largura do
passeio público neste ponto. As árvores serão retiradas. Os moradores plantaram, cuidaram e a Prefeitura de
São Borja quer destruir a arborização. Um mau exemplo.Tudo em nome do progresso que valoriza mais o automóvel do que as pessoas. Foto: Darci Bergmann, 22-10-2011

Uma cerejeira e na sequencia outras árvores nativas na Rua Venâncio Aires.
Forneci as  mudas e a Cooperativa Agrícola Imembuy  as plantou. Estão ameaçadas pelas obras de alargamento da rua.
Foto: Darci Bergmann, 22-10-2011

Arborização ameaçada. Rua Venâncio Aires, em São Borja/RS.
Guabijus e outras árvores nativas plantadas pela Cooperativa Agrícola Imembuy
Foto: Darci Bergmann, 22-10-2011





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Moradores se mobilizam com expediente ao Ministério Público Estadual
A seguir o texto do abaixo-assinado encaminhado ao MP, em 01/11/2011, com 129 assinaturas.

Ao Ministério Público Estadual
Nesta Cidade
Os abaixo-assinados, moradores desta cidade de São Borja, dirigem-se a Vossas Excelências para expor os seguintes fatos:
1)    A Prefeitura Municipal de São Borja está promovendo obras na Rua Venâncio Aires, visando torná-la de mão única para o trânsito, sentido Centro ao Bairro do Passo;
2)    As obras estão causando grande impacto ambiental, com a retirada  praticamente de todas as árvores, a maioria delas plantadas pelos próprios moradores ao longo de dezenas de anos;
3)      Após a retirada das árvores as máquinas destroem os passeios públicos, sendo estes estreitados, com alegação de que isto está previsto no projeto da obra: a largura dos passeios em alguns pontos ficou tão reduzida que vai dificultar o trânsito de pedestres e praticamente inviabilizar a arborização;
4)     O alegado projeto técnico da obra não levou em conta os aspectos da segurança dos pedestres, arborização e é omisso em responsabilizar a Prefeitura na reconstrução dos passeios públicos danificados;
5)   Ninguém tomou conhecimento de audiência prévia, necessária nesse tipo de obra, até porque envolve questões ambientais, de segurança pública e danos materiais;
6)   Ressalte-se que em determinada altura da Rua Venâncio Aires, ocorre um estreitamento, isto próximo à Cerealista Beira-Rio; daí não se justificar o alargamento viário já efetuado no trecho próximo à Praça da Viação Férrea;
Pelo exposto, solicitam os signatários que:
a)    Vossas Excelências determinem pela suspensão temporária das obras, antes que maiores danos sejam causados;
b)      Seja respeitada a legislação ambiental, inclusive a lei municipal complementar 24/2000, que prevê o Estudo de Impacto Ambiental para obras desse porte, inclusive a realização de audiência pública para manifestação dos interessados.
  São Borja, 24 de outubro de 2011.
                          Atenciosamente
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15 de outubro de 2011

Código florestal: entidades científicas apontam equívocos


Entidades científicas apontam equívocos no Código Florestal aprovado pela Câmara
  Comentários :: Publicado em 14/10/2011 na seção noticias :: Versões alternativas: Texto PDF



Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) encaminharam ao Senado Federal um documento no qual as entidades destacam os pontos que precisam ser revistos no Projeto de Lei da Câmara 30/2011, que trata da reformulação do Código Florestal brasileiro. Baseado em critérios científicos, o documento visa contribuir para o aperfeiçoamento do PLC, corrigindo os equívocos verificados na votação da matéria pela Câmara dos DeputadosLeia aqui a íntegra do documento (arquivo PDF).

Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e a Academia Brasileira de Ciências encaminharam, no dia 11 de outubro de 2011, ao Senado Federal, um documento no qual as entidades destacam os pontos que precisam ser revistos no Projeto de Lei da Câmara 30/2011, que trata da reformulação do Código Florestal brasileiro. Fruto de estudos de um grupo de trabalho de cientistas e pesquisadores da área, o documento se soma ao livro O Código Florestal e a Ciência - Contribuições para o Diálogo, publicado pelas duas entidades em abril deste ano.

"No primeiro estudo, publicado em livro, defendemos que a Ciência tinha que ser ouvida nas discussões do Código Florestal; é um documento mais geral que aborda como a Ciência poderia ajudar nos debates. Agora o texto é mais objetivo e ataca pontos específicos que o grupo entende que devem ser revistos, que merecem maior dedicação dos congressistas", esclarece José Antônio Aleixo da Silva, coordenador do GT e secretário da SBPC.

O documento defende que a atualização do Código Florestal precisa ser feita à luz da ciência e tecnologia hoje disponíveis e alerta aos senadores a importante missão de corrigir os equívocos verificados na votação da matéria na Câmara dos Deputados. De acordo com Aleixo, o estudo divulgado no dia 11 atende à demanda dos próprios senadores que querem ouvir o posicionamento dos cientistas. "Trazemos uma posição mais clara dos pontos que merecem maior atenção. Esperamos que esse texto tenha grande impacto, que seja levado em consideração, porque a briga política entorno do Código é grande", avalia Aleixo.

DESTAQUES

O documento traz um sumário resumido e uma parte mais detalhada com bibliografia indicativa. São dez pontos de destaque, entre eles três se concentram sobre as Áreas de Preservação Permanente (APPs). Os cientistas alertam que todas as APPs de beira de cursos d'água devem ter sua vegetação preservada e aquelas em que essa vegetação foi degradada devem ser integralmente restauradas. Segundo o estudo, deve ser mantida a definição de APP de cursos d'água do Código Florestal atual e os usos ribeirinhos das APPs na Amazônia devem receber tratamento diferenciado. A definição dos limites das APPs nas áreas úmidas deve ser calculada a partir do nível mais alto da cheia conforme definição da Convenção de Ramsar(Convenção sobre Zonas Úmidas de Importância Internacional) e as APPs em áreas urbanas devem ser reguladas pelo Plano Diretor da cidade.

Os cientistas alertam que é um equívoco considerar que APPs desmatadas até a data de 22 de julho de 2008, para uso alternativo do solo, sejam definidas como atividades consolidadas e por isso possam ser mantidas e regularizadas pelo Plano de Regularização Ambiental (PRA). A maioria dessas APPs foi desmatada em desacordo com a legislação ambiental vigente na época e a definição de área rural consolidada deve ser retirada do texto. O documento indica também a inclusão dos manguezais e apicun como APPs no texto do PLC 30/2011, em função de sua importância ecológica.

De acordo com o estudo, não se justifica cientificamente a inclusão das APPs no cômputo das Reservas Legais (RLs) já que apresentam estruturas e funções distintas e comunidades biológicas complementares. Elas devem ser mantidas separadas. Os cientistas recomendam que a compensação da Reserva Legal não deve ser prevista no âmbito do bioma indistintamente, pois devido a sua heterogeneidade física, biológica e ecológica, poderá levar à compensação de áreas que não têm equivalência nem em termos de composição e estrutura, nem de função. A compensação deve ser realizada em áreas mais próximas possíveis, dentro da mesma unidade fitoecológica (mesmo ecossistema), de preferência na mesma microbacia ou bacia, para que haja a desejada equivalência ecológica.

Os pesquisadores alertam que a permissão do uso de espécies exóticas em até 50% da Reserva Legal é extremamente prejudicial para as principais funções da área: conservação da biodiversidade nativa e uso sustentável de recursos naturais. Mas o uso temporário de espécies exóticas, combinado com espécies nativas regionais nas fases iniciais de restauração de uma área, pode ser uma alternativa interessante.

O documento destaca ainda que a Agricultura Familiar é definida naLei 11.326/2006, art. 3, com quatro critérios que devem ser simultaneamente observados e dizem respeito a tamanho, mão de obra, renda e gestão. Esses critérios não podem ser reduzidos na lei apenas ao tamanho da propriedade (quatro Módulos Fiscais).

DILEMA

Os cientistas ressaltam que não existe dilema entre conservar o meio ambiente e produzir alimentos, afirmando que a limitação para o crescimento da agricultura nacional se deve à falta de adequação de política agrícola e não às restrições ambientais colocadas pelo Código Florestal. O documento também trata do custo de restauração de área degradadas, que varia conforme diferentes situações, e destaca alguns serviços ambientais essenciais da vegetação ripária [mata ciliar] que justificam sua preservação e restauração.

FONTE

Jornal Agrosoft/Jornal da Ciência

12 de outubro de 2011

Clima terrestre. Britânicos suspendem teste de geoengenharia.

Britânicos suspendem teste de geoengenharia para manipulação deliberada do clima terrestre
  Comentários :: Publicado em 11/10/2011 na seção noticias :: Versões alternativas: Texto PDF


Um projeto para injetar água do mar a uma altitude de 1 km na atmosfera, conduzido por pesquisadores de quatro universidades do Reino Unido, não será mais realizado neste mês de outubro de 2011. O plano, que envolvia suspender uma mangueira por meio de um balão de hélio, seria um teste preliminar de uma família de estratégias de geoengenharia - a manipulação deliberada do clima terrestre - para combater os efeitos do aquecimento global.

Chamado
 Spice (sigla em inglês de Stratospheric Particle Injection for Climate Engineering, ou Injeção de Partículas na Estratosfera para Engenharia do Clima), o programa investiga a viabilidade de se lançar partículas na alta atmosfera para refletir parte da energia do Sol de volta ao espaço.

O teste previsto originalmente para outubro, mas agora suspenso por pelo menos seis meses, não teria a capacidade de afetar o clima: um modelo realmente funcional teria de injetar partículas a uma altitude de 20 km. O teste em escala serviria para gerar dados sobre o comportamento do balão e da mangueira.
 

De acordo com o material de divulgação do projeto, o efeito de resfriamento global esperado de uma aplicação dessa estratégia seria comparável ao de uma grande erupção vulcânica, um tipo de evento que lança grandes quantidades de material à base de enxofre na estratosfera.

Os pesquisadores envolvidos no Spice citam como exemplo a
 erupção do Monte Pinatubo, nas Filipinas, me 1991, que causou uma redução de 0,5º C na temperatura média global, ao longo dos dois anos seguintes.

PRESSÃO POLÍTICA

De acordo com o site da revista
 New Scientist, o teste foi adiado depois de uma forte pressão exercida pela ONG ETC, baseada no Canadá.

Em cartas enviadas a autoridades britânicas, a organização acusava o experimento de violar acordos internacionais como a Convenção de Biodiversidade das Nações Unidas, que impõem uma moratória na implementação de estratégias de geoengenharia até que seus efeitos ambientais sejam bem estudados.

Mas um especialista ouvido pela revista aponta que o teste do Spice não deveria ser visto como uma violação desse princípio, já que não teria o potencial de, realmente, afetar o clima. Mas alguns grupos ambientalistas consideram que a simples realização do teste representaria um "Cavalo de Troia" para a introdução efetiva de tecnologias de geoengenharia.
 

Também há o temor de que a opção de manipulação tecnológica do clima seja usada como pretexto para que medidas mais urgentes, como a redução das emissões de dióxido de carbono por atividade humana, sejam adiadas.

A nota do Conselho de Pesquisas em Engenharia e Ciências Físicas do governo britânico que anunciou a suspensão do teste informa, apenas, que a decisão foi tomada para "permitir mais tempo de interação com as partes interessadas. Adotamos uma abordagem responsável de inovação com este projeto", diz o texto. "E nossa decisão de interromper o teste reflete conselhos que recebemos de nosso comitê consultivo".
 

A oposição à geoengenharia não vem só de ONGs, no entanto. Em 29 de setembro de 2011, o
 Parlamento Europeu aprovou uma resolução sobre meio-ambiente que, entre outras disposições, manifesta "oposição a propostas de geoengenharia de larga escala". O mesmo texto reconhece "a importância da pesquisa, desenvolvimento e inovação, e a necessidade de cooperação científica e tecnológica."

RECOMENDAÇÕES DOS EUA

A despeito da perda de prestígio na cena europeia, a pesquisa sobre geoengenharia recebeu, no início de outubro, um impulso de um grupo de estudos nos Estados Unidos, o
 Bipartisan Political Center (BPC).Relatório divulgado em 4 de outubro de 2011 pede que o governo federal americano lance um "programa coordenado de pesquisas para explorar a eficácia potencial, viabilidade e consequências de estratégias de remediação climática".

O relatório afirma que "os riscos da mudança climática são reais e estão aumentando", e que "os riscos geopolíticos e para a segurança nacional da adoção de tecnologias de remediação climática por outros países ou agentes são reais".
 

Com base nisso, indica que os EUA deveriam pesquisar se alguma estratégia de "remediação climática" poderia representar uma resposta significativa aos riscos da mudança climática, e avaliar que medidas outros países podem ser levados a tomar. Os Estados Unidos deveriam "liderar as importantes conversações internacionais que provavelmente surgirão" a respeito do assunto.
 

ROYAL SOCIETY

Em 2009, a
 Royal Society do Reino Unido publicou um relatório de mais de 90 páginas intitulado Geoengineering the climate: science, governance and uncertainty, que avaliava a viabilidade de diversas opções propostas para a manipulação deliberada do clima, notando logo no início a "ausência de informação acessível e de qualidade" a respeito de tais propostas.

O trabalho divide os vários planos sugeridos em dois grupos -- remoção de dióxido de carbono, com as estratégias para retirar o excesso de gás causador do efeito estufa da atmosfera; e controle da radiação solar, envolvendo propostas para reduzir a energia do Sol que chega á superfície do planeta.

O relatório conclui que as opções de geoengenharia "só deveriam ser consideradas como parte de um pacote mais amplo de alternativas", incluindo reduções nas emissões de gases causadores do efeito estufa, e que ainda assim os métodos relacionados à remoção do dióxido de carbono são preferíveis. No entanto, o texto diz que, numa situação de "emergência climática", técnicas para refletir a luz solar de volta ao espaço podem representar "a única forma de reduzir as temperaturas globais".

FONTE
 

Inovação Unicamp
Carlos Orsi
 - Jornalista
Telefone: (19) 3521-4876
E-mail:
 contato@reitoria.unicamp.br

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Saiba mais sobre o clima:
Uma persistente La Niña está de volta
Por Stephen Leahy, da IPS
La Niña voltou menos de três meses após sua última e poderosa manifestação, que ajudou a disparar os preços mundiais dos alimentos. A nova Niña, fase fria da Oscilação do Sul, prolongará a falta de chuvas em importantes regiões agrícolas do Brasil e da Argentina, e no sul dos Estados Unidos, afetando colheitas de soja e trigo.
Não é raro que La Niña se apresente em vários anos consecutivos, disse Jeffrey Masters, diretor de meteorologia e cofundador deWeather Underground, primeiro serviço meteorológico comercial na internet. A última vez que ocorreu foi em 1998 e 2001, "com intervalo de poucos meses de condições neutras, como neste ano de 2011", explicou ao Terramérica.

La Niña e El Niño são, respectivamente, as caras fria e quente do El Niño Oscilações do Sul (Enos), fenômeno climático marítimo cíclico que afeta os padrões meteorológicos em todo o mundo. O Enos é parte do sistema que regula o calor no trópico oriental do Oceano Pacífico e está pautado por mudanças na temperatura da superfície oceânica e na pressão atmosférica. Entretanto, mal começamos a entender como o Enos se manifestará no futuro em razão da mudança climática, advertiu Masters.

A aparição anterior do La Niña foi em junho de 2010. Na Austrália desatou fortes chuvas que puseram fim a dez anos de seca, mas que inundaram cerca de 850 mil quilômetros quadrados, quase a área que França e Alemanha ocupam juntas. Também causou inundações sem precedentes no norte da América do Sul, por exemplo, na Colômbia e norte do Brasil. Ao mesmo tempo, o centro e o sul de Brasil eArgentina e o sul do continente sofreram secas.

"As projeções indicam que esta Niña será mais fraca", afirmou Masters. Contudo, seus impactos serão amplificados porque muitas regiões ainda não se recuperaram do La Niña anterior. América Central, Venezuela, Colômbia e outras regiões, que em dezembro e janeiro sofreram inundações sem precedentes, podem esperar mais precipitações fortes nos próximos meses, segundo as previsões, acrescentou.

Devido à mudança climática, a atmosfera terrestre é, em média, 0,8 grau mais quente do que na era pré-industrial e por isso retém 4% mais de vapor de água, disse ao Terramérica, por e-mail, o especialista em clima Kevin Trenberth, do National Centre for Atmospheric Research, com sede em Boulder, o Estado norte-americano do Colorado. "A umidade extra acompanha as temperaturas marinhas e tem impacto em tudo. Nos lugares que estão mais quentes durante o La Niña, há mais risco de inundações", destacou.

Os modelos climáticos computadorizados ainda não conseguem prever como a mudança climática afetará o complexo ciclo do Enos, que pode durar entre três e sete anos, afirmou Trenberth. Embora as inundações e as secas tenham piorado, não há evidências claras de que a mudança climática afetou o Enos, alertou. Masters prevê que oLa Niña atual atingirá seu clímax em janeiro e se diluirá na primavera boreal [do hemisfério norte]. Isto levará tempo seco ao Texas e a outras partes do sul dos Estados Unidos que já sofrem uma seca extrema.

"As secas tendem a gerar sistemas de alta pressão que atuam reforçando as condições que produzem a própria seca", disse Masters. Este ano caíram no Texas menos de 127 milímetros de chuva, quebrando todos os recordes e causando perdas agropecuárias de US$ 5 bilhões. A agricultura da região enfrenta um caminho longo e difícil que exigirá várias temporadas de fortes chuvas para se recuperar, acrescentou.

Os técnicos do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos(USDA, da sigla em inglês) acreditam que, continuando o La Niña, haverá "uma grande probabilidade" de fracassar a colheita de inverno de trigo e "um possível fracasso dos cultivos de verão" em 2012 nas planícies do sul do país. O Oil World, um serviço de previsão agrícola com sede na cidade alemã de Hamburgo, prevê que a soja e outros cultivos estarão ameaçados por condições mais secas em boa parte da Argentina e no sul e centro do Brasil.

"O centro do Brasil sofrerá condições de secas incomuns desde meados de abril", diz um informe do Oil World, divulgado dia 30 de setembro de 2011. Em algumas zonas da Argentina choveu muito menos do que a metade do que se considera normal. Sem chuvas, as colheitas de outubro e novembro podem ir à bancarrota, segundo o informe.

Os preços mundiais dos alimentos estão 26% mais altos do que há um ano, segundo o Índice da FAO, publicado em setembro pelaOrganização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação(FAO). As reservas de cereais estão baixas, mas a FAO estima que os rendimentos mundiais de trigo serão 2,8% mais altos do que em 2010, embora esta previsão seja de junho, antes de se saber com certeza do La Niña atual.

Fonte:Agrosoft/Tierramérica

11 de outubro de 2011

As florestas, os políticos e o dragão


Foto: Darci Bergmann
Por Darci Bergmann

          No atual momento uma onda de protestos sacode os Estados Unidos. No centro da questão o desemprego, os monopólios, as desigualdades sociais e acima de tudo a frustração com a classe política. Há quem afirme que a democracia americana é apenas de fachada e que uma elite de privilegiados é que tem o poder de fato. 
          Lá já perceberam que a classe política, com raras exceções, tem comportamentos diferentes. Na busca do voto o discurso é um e depois das eleições a prática é outra. O que deveria ser um exercício de cidadania, com  mandatos eventuais, transforma-se em profissão e num jogo de vale-tudo.
No Brasil a situação é semelhante. Querem até que prefeito tenha 13º salário. Já houve tempo em que queriam que vereador tivesse aposentadoria. Tem deputado que diz representar os pequenos agricultores e lá na Câmara Federal faz o jogo dos grandes latifundiários desse País. Os votos dos pequenos elegem e o mandato é exercido no interesse dos grandes do agronegócio. 
Tal percepção vem à tona quando se analisa o que ocorre com a pretendida reforma do Código Florestal, agora em tramitação no Senado Federal. Em pesquisas de opinião, a maioria da população brasileira  manifestou seu interesse em manter a essência do Código Florestal. Em outras palavras, pela manutenção das áreas de preservação permanente e da Reserva Legal, nos termos da lei ainda em vigor. E também contra a anistia aos desmatadores, alguns deles ligados a políticos corruptos, entreguistas, verdadeiros sanguessugas do patrimônio natural. 
           Floresta preservada dá emprego, renda, produz alimento e assegura as condições para produzir de forma sustentável. Não faltam exemplos de boa convivência entre produção e preservação ambiental. 
Mas o que se pretende mesmo é escamotear a verdade, criando-se a falsa impressão de que os ambientalistas são contra os agricultores e vice-versa. Citam alguns políticos que a lei como está impede o aumento da produção de alimentos. A prática já demonstrou que o desmatamento desordenado, aliado às queimadas e ao cultivo predatório, degradou milhões de hectares de terras. E quem vai pagar essa conta? Querem anistiar os causadores de tudo isso? Não seria mais coerente que quem degradou recupere a fertilidade perdida? 
          Que futuro terá este País, quando o restante de suas florestas estiverem aniquiladas sem os seus serviços ambientais? Os mananciais de água desprotegidos e muitos deles sem condições de qualidade e quantidade? As ocupações de áreas de risco tanto para habitação como para o plantio? E ainda se pode citar a perda de biodiversidade, polinizadores e o permanente risco de novas pragas e doenças que proliferam mais em áreas degradadas. 
          Tenho receio de que, na ânsia de produzir mais alguns milhões de toneladas de grãos e de carne para exportação, as florestas, o solo e os mananciais de água sejam sacrificados mais do que já foram. Essas exportações geram uma riqueza aparente. Boa parte desse dinheiro que entra é transformado em consumo de supérfluos, verdadeiras geringonças que viram lixo e sucatas de toda a espécie. Um exemplo disso está em certas quinquilharias que vem lá da Ásia. Exportamos matéria-prima e importamos lixo para a falar a verdade, tal é a falta de qualidade de alguns produtos que aqui aportam. Querem um exemplo entre milhares talvez? Importamos componentes e acessórios de computador, "baratos", que duram três ou quatro semanas e daí vão para o lixo.      
          O dragão chinês já está aqui em busca de matéria-prima, desde grãos e carne até minérios. São várias empresas já estabelecidas com essa finalidade. Na época do "descobrimento" do Brasil, os colonizadores presenteavam os índios com espelhinhos e outras futilidades, em troca de ouro, madeira e terras. Agora o Brasil cede matérias-primas valiosas e compromete o seu patrimônio natural em troca de futilidades tidas como de alta tecnologia a preços módicos. Vai matéria prima barata e vem produto industrializado com valor agregado. E tem político que vê progresso nesse tipo de intercâmbio. Ainda bem que pessoas de visão mais ampla já articulam medidas de proteção aos interesses nacionais. Resta incluir as nossas florestas nessa proteção, antes que sejamos inundados com os "espelhinhos" da globalização. 
          A nós cidadãos cabe também expurgar os políticos corruptos, desde os municípios até os altos escalões do poder.  
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Saiba mais sobre os serviços ambientais das florestas e o Código Florestal. Acesse o link abaixo.  
Código Florestal: Os serviços ambientais da floresta
ONU alerta para risco de colapso de recursos naturais na América Latina

  

3 de outubro de 2011

A grande viagem

Foto: Darci Bergmann


Por Darci Bergmann

A minha trajetória aqui já percorreu mais de 63 anos. Ao longo desse caminho se descortinaram cenários admiráveis e outros de desolação. Como num filme, fui espectador. Também fui ator e de alguma forma alterei o cenário. A trama da vida vai fluindo e o fim ainda não tem data marcada. Quando esse filme terminar, inicia a grande viagem para outro cenário totalmente desconhecido. A minha embalagem  ficará nas entranhas da terra. Também ficarão todos os apetrechos, alguns tidos como indispensáveis e que não terão nenhuma serventia na nova jornada.
No tempo que resta desse filme da vida, devo fazer uma revisão.  Uma prestação de contas à minha consciência de ator. Quem sabe revise os meus erros de interpretação. E se possível ainda conserte alguns estragos meus e de outros atores.  É isso mesmo. Recebi um roteiro para o filme da vida, mas com o livre arbítrio de alterá-lo se o quisesse. Atuo numa fração do Planeta e o elenco é de uma única espécie que a cada ano se torna mais numeroso.  Agora percebo que atores de outras espécies foram negligenciados e alguns até correm risco de desaparecer.
O cenário é variado, é sutil e uma teia de formas de vida ainda palpita em alguns locais. O passar dos anos aguçou minhas percepções. No meu sítio, uma pequena amostra do gigantesco cenário da Terra, sou um espectador deslumbrado, tamanha é a diversidade do elenco de seres que eu antes não percebia. É uma quase reverência. Estou no primeiro domingo da primavera.  As chuvas regaram o chão e a explosão de verde é intensa, em vários tons. Nos bosques, o perfume de flores, de resinas e da terra molhada. A sinfonia de fundo vem de seres alados. De repente, o quase silêncio é interrompido pelo ronco de outro ator, lá do alto de uma copada. É um bugio macho. Comanda um grupo de fêmeas e os filhotes, dentro de um território demarcado por ele. Ali, naquele momento eu sou o único da minha espécie. Mas não há solidão. Nem poderia haver com tamanha quantidade de formas de vida. Sento-me no chão forrado de folhas e fico calado, apenas observando. Aqui e ali observo que os tatus fizeram pequenas covinhas em busca de minhocas e larvas. Muitas vezes coloquei sementes nessas covinhas e as tapei com a terra mexida e sobre esta coloquei folhas para manter a umidade. Ao meu lado uma pequena muda de jabuticabeira é testemunha de que a parceria com os tatus deu certo.  Agora, um quase silêncio. Nenhum ruído da civilização. Tenho uma sensação de paz. Ainda sentado faço uma meditação. Uma gralha-picaça chega de repente e faz coreografia bem perto de mim. Terminada a apresentação, volto a meditar. Agora é um bem-te-vi que se anuncia e outro mais adiante responde. O desfile de beldades não pára. Beija-flores, o alma-de-gato e outras aves se apresentam como atores neste cenário deslumbrante. Nunca se está só quando se está nas entranhas de uma floresta. Nunca se está só quando se está num campo verdejante. A vida palpita nesses cenários.
Procuro refazer os pensamentos e me vem à mente um sentimento de dúvida. Até quando cenários assim existirão aqui? A espécie humana, no seu conjunto, está obcecada pelo progresso. Os seus valores são outros. Por onde ela passa deixa marcas profundas de destruição e de resíduos. As paisagens do cenário são alteradas sempre com os mesmos argumentos. Ora porque uma estrada é necessária, ora porque há escassez de energia. Outras vezes porque há necessidade de produção de alimentos. Nessa visão unilateral de povoar o Planeta só com uma espécie talvez resida o maior equívoco da civilização. Uma civilização insensível, afastada do meio natural, torna-se alienada, dependente e sujeita à manipulação.  E ainda são poucos os indivíduos que tem percepção mais apurada sobre a importância de todas as formas de vida. Eu mesmo não sei o que será deste recanto que agora reverencio quando eu partir para a grande viagem.  Se depender de mim, ainda fico aqui por algum tempo. Até para dar minha humilde contribuição por um estilo de vida mais sustentável.